Conape 2018: educação só se constrói com participação popular

O atual governo parece não ter entendido, ainda, que o processo de construção da educação exige diálogo e participação popular. Ao adotar uma postura autoritária e unilateral na relação com a comunidade educacional, negam os fracassos históricos que foram as reformas educacionais impostas de cima para baixo, sem ampla participação sociedade civil

Em 18 meses de gestão, o governo do Maranhão efetivou várias ações que resultaram em ganhos salariais concretos e históricos para os profissionais da educação. Foto: Divulgação
Em 18 meses de gestão, o governo do Maranhão efetivou várias ações que resultaram em ganhos salariais concretos e históricos para os profissionais da educação. Foto: Divulgação (Foto: Danilo Molina)


✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no canal do Brasil 247 e na comunidade 247 no WhatsApp.

Os movimentos populares ligados ao campo da educação têm resistido de forma exemplar ao autoritarismo imposto pela atual gestão do Ministério da Educação para o segmento. Exemplo mais recente desta atitude em defesa de conquistas históricas na educação é a bem-vinda organização da Conferência Nacional Popular de Educação (Conape), prevista para abril de 2018, pelo recém-criado Fórum Nacional Popular de Educação (FNPE).

A Conape 2018 surge como espaço de resistência e de diálogo para os diversos atores envolvidos com educação no Brasil. É uma resposta dos movimentos populares e da comunidade educacional ao desmonte realizado pelo Ministério da Educação no Fórum Nacional de Educação (FNE) e à protelação na organização da Conferência Nacional de Educação (Conae).

Em abril deste ano, o Ministério da Educação publicou a Portaria 577/2017, que excluiu representantes de diversas entidades do FNE e estabeleceu que outras entidades disputassem uma vaga entre si. As intervenções no FNE, realizadas de forma unilateral pelo ministro Mendonça Filho, inviabilizaram o funcionamento do Fórum ao transferir o controle do mesmo, que até então funcionava sem intervenções, para o governo.

continua após o anúncio

O FNE foi concebido como uma conquista histórica da comunidade educacional brasileira e era um espaço permanente de interlocução entre a sociedade civil e o Estado brasileiro. Funcionava por meio de decisões colegiadas, de forma transparente, democrática e republicana.

Em junho, o impacto desta intervenção culminou com a decisão de saída coletiva do FNE dos representantes de entidades que não foram excluídos pelo governo Temer pela Portaria 577/2017, o que, na prática, acabou com o Fórum. Além disso, ancorou a criação FNPE, que funcionará nos moldes do antigo FNE, com a participação de representantes de diversos setores.

continua após o anúncio

O FNPE terá o papel decisivo de exercer o controle social de acompanhamento da execução e do cumprimento das metas Plano Nacional de Educação. Será, ainda, responsável pela organização da Conape 2018, que também surge como reação dos movimentos populares da educação frente à transferência das competências de realização e de acompanhamento das deliberações da Conae para a Secretaria Executiva do Ministério, papel que, historicamente, era desempenhado pelo FNE.

O atual governo parece não ter entendido, ainda, que o processo de construção da educação exige diálogo e participação popular. Ao adotar uma postura autoritária e unilateral na relação com a comunidade educacional, negam os fracassos históricos que foram as reformas educacionais impostas de cima para baixo, sem ampla participação sociedade civil.

continua após o anúncio

Exemplos de fracassos em reformas educacionais autoritárias não faltam na história brasileira. Vale citar a reforma do ensino médio imposta pela ditadura militar em 1971. Na ocasião, instituição unilateral do ensino profissionalizante compulsório e universal em todo ensino médio não funcionou e aprofundou o preconceito contra este tipo de ensino, aumentando o fosso entre a educação regular e a educação técnico profissional. Cenário que só começou a ser resgatado de forma efetiva e sistêmica com o Programa Nacional de Ensino Técnico e Emprego (Pronatec).

A reforma do ensino médio encampada pelo governo Temer por meio da edição de uma medida provisória é outro exemplo de forte resistência da sociedade civil quanto a medidas autoritárias na educação. Editada sem nenhum diálogo com estudantes, com professores e com a comunidade acadêmica, esta medida provisória impulsionou a mobilização estudantil, com a ocupação de mais de mil escolas por todo o país.

continua após o anúncio

Ao final do processo, o governo teve que ceder e a mobilização estudantil reverteu pontos importantes da medida provisória, quando da discussão do tema no Congresso Nacional, com o retorno de disciplinas que tinham sido excluídas pela medida provisória (sociologia, artes, educação física e filosofia) e a manutenção de uma carga curricular mínima para todo o país. Importante registrar que a tentativa de imposição da reforma do ensino médio por meio de uma medida provisória desconsiderou e atrasou o processo de construção coletiva da Base Nacional Curricular Comum, que teve mais de 12 milhões de contribuições e que, até agora, não foi lançada para o ensino médio.

Como em outros momentos decisivos da história brasileira, a educação consolida-se como importante segmento de resistência ao autoritarismo e como exemplo de exercício da democracia. Que a Conape 2018 seja capaz de resgatar os princípios do "Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova", de 1932, e construa as bases para o exercício efetivo de uma escola única, laica e gratuita, que tenha como bússola o cumprimento e a execução das metas do Plano Nacional de Educação.

continua após o anúncio
continua após o anúncio

iBest: 247 é o melhor canal de política do Brasil no voto popular

Assine o 247, apoie por Pix, inscreva-se na TV 247, no canal Cortes 247 e assista:

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

continua após o anúncio

Ao vivo na TV 247

Cortes 247