Como fazer da tragédia uma bandeira de luta das oposições por Justiça?

"Ninguém mais neste momento está precisando do apoio e da mobilização das forças democráticas do que os sem teto de Brumadinho e de Mariana, que até hoje não receberam as casas prometidas pela Vale", diz Ricardo Kotscho, do Jornalistas pela Democracia; "Mesmo rachadas e em minoria, as bancadas dos partidos de oposição podem enfrentar com garra a tropa de choque dos parlamentares financiados pelas mineradoras e denunciar ao mundo o que está acontecendo no Brasil", afirma; "Esta é a hora de sair do marasmo e da hibernação obsequiosa, que se seguiu à campanha eleitoral, para mostrar a 208 milhões de brasileiros que ainda há lideranças políticas dispostas a resistir ao novo regime de arbítrio, como aconteceu na época do regime militar"

Como fazer da tragédia uma bandeira de luta das oposições por Justiça?
Como fazer da tragédia uma bandeira de luta das oposições por Justiça? (Foto: REUTERS/Adriano Machado)


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Por Ricardo Kotscho, para Os Divergentes e para o Jornalistas pela Democracia

“Não foi desastre. Foi crime! (Milton Nascimento, resumindo a tragédia de Brumadinho, na abertura do seu show, sábado, no Mineirão).

“Não esperem da Vale nada. Vocês que vão conseguir, unidos, resolver o problema de vocês” (Promotor André Sperling, do MP de Minas Gerais, falando a 200 atingidos pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho).

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Espero que meu amigo Guilherme Boulos, líder dos sem teto, e demais lideranças do que sobrou da oposição, tenham lido estas sábias lições do grande e eterno Milton e do promotor Sperling publicadas pela imprensa nesta terça-feira de luto no Brasil.

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Ninguém mais neste momento está precisando do apoio e da mobilização das forças democráticas do que os sem teto de Brumadinho e de Mariana, que até hoje não receberam as casas prometidas pela Vale.

Na reabertura do Congresso Nacional, esta tem que ser a principal bandeira dos partidos de oposição para evitar novas tragédias anunciadas pelos discursos da “nova ordem”, que quer criminalizar e flexibilizar a fiscalização das barragens e a proteção ao meio ambiente, ameaçando a sobrevivência das populações indígenas e quilombolas, e escancarando a Amazônia para a mineração, o boi e a soja.

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Além das bancadas BBB (boi, bíblia e bala), que já apoiam o governo Bolsonaro, temos agora também a “bancada da lama”, na perfeita definição de Bernardo Mello Franco, daquilo que está por trás dos crimes ambientes, sociais e econômicos que se multiplicam pelo país.

Esta bancada, para se ter uma ideia da sua força, é liderada pelo ex-deputado mineiro Leonardo Quintão, que não foi reeleito, mas já arrumou uma boquinha na Casa Civil do governo militarizado de Jair Bolsonaro.

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Membro destacado da tropa de choque de Eduardo Cunha, Quintão foi o relator do Código de Mineração e teve suas campanhas financiadas pela Vale e outras empresas de mineração.

Graças ao poder da “bancada da lama”, a mineradora Samarco, da qual a Vale é sócia, até hoje não pagou nenhum centavo de multa ambiental ao Ibama, três anos após a tragédia de Mariana.

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Já foram instaurados 25 autos de infração, que resultaram em multas da ordem de R$ 350,7 milhões à mineradora. Para quê? Para nada.

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Como bem advertiu o promotor André Sperling, “não esperem da Vale nada”. E as águas do rio Doce, as populações ribeirinhas, as matas e os peixes continuam apodrecendo, à espera de providências da Justiça.

Por isso, caro Boulos, está na hora de arregaçar as mangas e pegar esta bandeira em defesa da vida e da Justiça, ameaçadas pela força do poder econômico, parlamentar e, agora, também militar.

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Mesmo rachadas e em minoria, as bancadas dos partidos de oposição podem enfrentar com garra a tropa de choque dos parlamentares financiados pelas mineradoras e denunciar ao mundo o que está acontecendo no Brasil.

Esta é a hora de sair do marasmo e da hibernação obsequiosa, que se seguiu à campanha eleitoral, para mostrar a 208 milhões de brasileiros que ainda há lideranças políticas dispostas a resistir ao novo regime de arbítrio, como aconteceu na época do regime militar.

É preciso fazer de Brumadinho um símbolo da resistência democrática como foi o ABC paulista no ocaso da ditadura.

De nada adianta ficar só nas redes sociais, dando entrevistas à mídia alternativa e soltando notinhas à grande imprensa, que ninguém publica.

Por que não organizar desde já uma grande manifestação de solidariedade às vítimas da tragédia, lá em Brumadinho, neste final de semana, enquanto ainda se procuram os corpos de quase três centenas de desaparecidos?

É preciso que as famílias das vítimas, e todos os brasileiros indignados com o que está acontecendo no país, não se sintam abandonados nesta hora grave da vida nacional.

Só assim não daremos razão ao que me escreveu a leitora Emiliana Bezerra Cavalcanti, na área de comentários deste Balaio:

“O Brasil virou uma grande Brumadinho”.

Chega de impunidade!

E vida que segue.

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