Com Lula preso e a oposição de férias, o inimigo agora é a imprensa

"Com Lula preso e a oposição ainda de férias, como não pode viver sem inimigos, o presidente Jair Bolsonaro escalou a imprensa como inimiga do regime. Não chega a ser uma novidade para quem viveu como jornalista os 21 anos da ditadura militar", diz o jornalista Ricardo Kotscho; "Militares, como sabemos, sempre precisam de um inimigo para justificar a própria existência. Sobrou para os jornalistas, mas não entendo isso: a maior parte dos veículos de mídia já apoia o novo governo, alguns até com entusiasmo"

Com Lula preso e a oposição de férias, o inimigo agora é a imprensa
Com Lula preso e a oposição de férias, o inimigo agora é a imprensa (Foto: Esq.: Marcelo Camargo - ABR / Dir.: Rafael Ribeiro)


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Por Ricardo Kotscho, para o Balaio do Kotscho e os Jornalistas pela Democracia

No dia da posse, o primeiro Twitter do novo presidente foi para atacar a revista Veja com uma saudação militar: “Selva!”.

Era o primeiro sinal do que viria pela frente: durante toda a terça-feira da cobertura da posse, os jornalistas foram confinados em chiqueirinhos, sem direito de ir e vir, vigiados por agentes de segurança, sem comida nem água, fazendo filas nos banheiros e sentados no chão.

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Com Lula preso e a oposição ainda de férias, como não pode viver sem inimigos, o presidente Jair Bolsonaro escalou a imprensa como inimiga do regime.

Não chega a ser uma novidade para quem viveu como jornalista os 21 anos da ditadura militar.

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Mas, mesmo naquela época, não me lembro de ter recebido um tratamento tão desumano.

Jornalistas da Espanha e da China abandonaram a cobertura em Brasília por total falta de condições de trabalho, mas os brasileiros resistiram até o fim, e alguns até pareciam felizes ao entrar no ar.

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Só os jornalistas mais antigos estranharam o tratamento e não acharam nada normal o que estava acontecendo.

O problema é que agora tudo no Brasil virou o “novo normal”, já que rapidamente as instituições se adaptaram à nova ordem implantada pelo novo presidente.

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Nem tudo que é novo é necessariamente bom. Já tem muita gente com saudades do Temer e até do general Figueredo, que pelo menos era engraçado.

O último general-presidente também vivia às turras com a imprensa, mas não chegava a torturar os jornalistas em serviço.

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Certa vez, arrisquei fazer uma pergunta para ele de supetão, na saída de uma cerimonia oficial em Lisboa, onde não havia outros repórteres.

Em vez de chamar a segurança, botou a mão no meu ombro, e deu um sorriso esperto:

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“Não vem, não. Sem entrevista. Tá querendo passar a perna nos teus colegas?”

Essa gente que entrou agora está sempre de cara emburrada, já repararam?

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Parece que eles estão permanentemente em posição de combate, olhando de lado, ariscos, prontos para matar ou morrer.

Só dão um sorriso quando o protocolo exige ou estão cercados de apoiadores querendo fazer uma “selfie”.

Imbuídos da certeza de que estão salvando o país, acham que jornalistas servem apenas atrapalhar o trabalho deles.

O que os novos donos do poder querem são elogios, não perguntas difíceis.

É só o começo, mas já dá para assustar. Como será daqui a seis meses?

A exceção à regra é o midiático ex-juiz Sergio Moro, agora ministro, que adora uma entrevista coletiva com jornalistas amigos.

E os terroristas que ameaçavam a festa da posse? Já foram presos?

Militares, como sabemos, sempre precisam de um inimigo para justificar a própria existência.

Sobrou para os jornalistas, mas não entendo isso: a maior parte dos veículos de mídia já apoia o novo governo, alguns até com entusiasmo.

Vida que segue.



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