Carrões na pista, assassinos ao volante
"Cantam pneus, buzinam, xingam os pedestres, e seguem em frente, impávidos e gloriosos, ao volante das suas SUVs e off-roads, os carrões da moda. Certos da impunidade, pensam que estão nas estradas das suas fazendas onde eles são a lei", escreve o jornalista Ricardo Kotscho sobre o trânsito paulistano
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Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia
Do meu posto de observação na calçada de um boteco, numa das esquinas mais movimentadas da cidade, nem acredito no que vejo.
Ali, no cruzamento da Bela Cintra com a Lorena, no coração dos nobres Jardins, só por milagre não morre mais gente.
As quatro faixas de pedestres são adereços decorativos que não servem para nada.
Os carrões, que sobem a Bela Cintra no embalo, passam a 100 por hora, mesmo sabendo que, logo adiante, tem outro farol.
Cantam pneus, buzinam, xingam os pedestres, e seguem em frente, impávidos e gloriosos, ao volante das suas SUVs e off-roads, os carrões da moda.
Certos da impunidade, pensam que estão nas estradas das suas fazendas onde eles são a lei.
Nesta região da cidade, moram muitos idosos, circulam carrinhos de bebê e madames com seus pets, que devem ter um anjo da guarda muito forte.
O barulho das brecadas não assusta mais ninguém, já fazem parte da paisagem.
Leio no jornal que “Covas gasta R$ 20 mi em ações para frear mortes no trânsito”.
É dinheiro jogado fora.
Porque quem causa estas mortes não está nem aí para campanhas educativas, não assiste à televisão aberta, não ouve rádio, acelera e liga o f…-se. .
Eles assistem às séries on demand (é assim que se diz?), em que a vida conta muito pouco e só vale a lei do mais forte.
Empoderados pela nova ordem, são capazes de passar por cima do guarda da esquina, e dar uma banana, se tivesse algum guarda na esquina.
Em vez de fazer anúncios, a prefeitura paulistana gastaria melhor suas verbas se multiplicasse os radares e marronzinhos nas esquinas mais movimentadas da cidade, para punir os assassinos em potencial, que ameaçam nossas vidas nas faixas de pedestres.
Como eles também não ligam muito para multas, pois dinheiro não falta, melhor seria prendê-los preventivamente, cada vez que cometem uma infração colocando em risco a vida de terceiros.
Na capital paulista, em 2018, os acidentes de trânsito provocaram 849 mortes. Eu escapei.
Totens cobertos de sacos pretos vão lembrar estes mortos com cruzes colocadas pela prefeitura no canteiro central da avenida 23 de Maio.
Melhor seria se colocassem os retratos de quem provocou essas mortes, os assassinos ao volante que continuam impunes.
Você conhece alguém que está preso por ter provocado um acidente de trânsito fatal?
A prefeitura planeja também criar “áreas calmas” nos bairros, onde os motoristas não poderão circular a mais de 30 km/h, mas ainda não há previsão para implantar este projeto.
Nestas horas, me lembro do que me aconteceu anos atrás aqui perto, na esquina da Oscar Freire com Haddock Lobo, outro cruzamento nobre.
Na faixa de pedestres, minha família atravessava a rua com uma bisavó octogenária e um carrinho de bebê.
Veio um carrão com tudo, buzinando, e só me restou xingar o sujeito.
Logo adiante, ele parou o carro, abriu a porta e gritou:
“Qual é, babaca? Pensa que está em Londres?”
Vida que segue.
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