Bem mais que pipoca, candomblé e capoeira

O "não saber", o "não saber-se negro" é o mais amplo e moderno investimento de desintegração de um povo e que se mantem firme e promissor por quase quinhentos anos; é a cisão necessária e definitiva para qualquer lógica de dominação



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Celebremos a co-ciência negra ou os esforços pedagógicos por alumbrar o país para o significado da presença da matriz negra, no dizer de Darci Ribeiro, no processo de constituição da formação nacional.

E não estou, nem de longe, me referindo a aspectos pitorescos e que o prosaico ensino fundamental e médio, ainda hoje muito bem alinhado ao doutrinamento ainda da ditadura civil-militar de 1964 que cita à exaustão que, por exemplo, negros ingressaram no panteão da brasilidade fundamentalmente, com pipoca, candomblé e capoeira.

É de uma miséria teórico-reflexiva de causar espécie. Mesmo esse miúdo contributo é, em si, exceção que afirma a regra e reconheçamos que quatrocentos anos depois, os negros, ativos portadores de vasta e fértil cultura milenar, ainda hoje não chegaram ao centro da cultura nacional; mesmo com uma população de quase setenta por cento de negros, pardos e mestiços não somos, (pasmem!) um país de negros. A estatística indica algo, a cultura e os valores seguem para outra ponta.

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Que estranho! Nem vou me agarrar aos clássicos exemplos da arte ou da culinária onde samba, futebol e cachaça são amplamente citados mas me refiro a algo maior e mais complexo. Cito o corpo; a linguagem; aos dialetos ou a "dialetização" de nosso português-brasileiro a partir do amplo vernáculo da luso-africanidade; as muitas formas de espiritualidade que nos define; nossa sexualidade, esta energia central a reger nosso ser e nossa individualidade, enfim, estou tratando de todo um universo de símbolos, ações, atividades e construções que se interagem, geram entendimento, sentido e unidade e que nos fora legada pela atividade laboral e cultural dos negros nesta senzala continental e que chamamos de "Brasil". Pois creiam, ainda a partir desses elementos estruturantes e centralmente definidores, mesmo assim, e de novo... Não somos um país de negros!

O mundo da África e que aportou por aqui, portador de ritos, religiosidades, ciências e formas próprias de pertencimento segundo lógica sumamente branca, européia, proprietária e católica não fora decisiva para a constituição da sofisticada e ainda incompreensível civilização do Brasil.

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É trágico! Vivemos sob fantástico e eficaz "apartheid tupiniquim" e que, simplesmente, dá certo! Desnecessário falar da situação dos negros brasileiros no que respeita aos seus deploráveis índices educacionais; no seu lugar decisivo nas políticas de segurança do país; grosso modo, política pública de segurança é caçar e eliminar negros.

Alguém se lembra dos cinquenta mil assassinatos/ano de jovens negros? Sabem da população negra e encarcerada no Brasil? Posso ajudar!

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Dados do Ministério da Justiça (MJ) indicam que temos a quarta população carcerária do mundo, sessenta por cento dessas pessoas são negras.

Sem medo de errar... Cadeia por aqui é para preto!

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Está em um curso, ainda em curso, o mais fantástico e inteligente genocídio contra um segmento étnico de um país. Bem mais do que nos Estados Unidos, na fronteira do México, nas periferias da Colômbia ou mesmo nas guerras tribais da Africa.

O Brasil opera a mais repugnante biopolítica destinada contra um povo e que acontece no planeta. A categoria da "biopolítica" nos é especialmente importante para tentarmos descrever qual é, de fato, a relação entre o Estado brasileiro e os negros. Segundo Michel Foucault: "... deveríamos falar de 'biopolítica' para designar o que faz com que a vida e seus mecanismos entrem no domínio dos cálculos explícitos, e faz do poder-saber um agente de transformação da vida humana". [FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988]

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Essa biopolítica, em Foucault, este cálculo, está na educação pública rasteira e de qualidade lastimosa; nas políticas de saúde onde postos de atendimento ainda são regalias dignas de toda honra; na concentração da terra e na devastação dos recursos naturais e; na pior lógica de assalariamento de todo o Mercosul; naqueles não atendidos pelas políticas de habitação do país, etc.

Adivinhem quem, dentre nós, é mais e frontalmente atingido por toda essa ruína social e estatal que inexoravelmente, se converte em biopolítica? Acertou quem disse que são os "os negros!".

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O não reconhecimento da condição de negro implica em determinada postura, comportamento e atitude diante do mundo e, sobretudo, diante da política; e o "não saber" desse mundo que nos constituí, que está em nós como a carne que reveste nossos ossos ou como o sangue que corre em nossas veias é o "não saber" da auto-negação; é a terrível e implacável oposição entre a dimensão material que define o corpo e os fazeres objetivos e concretos em torno do trabalho e a espiritual e seu universo de simbolismos e imanências que nos permite identidade, cultura e interação comunitária.

É o "não saber" que fragmenta um povo, que fragiliza laços e convivências e que nos torna presa fácil ante ao avanço imperial de governos e despotismos outros. Não é um amiúde comportamental ou uma trivialidade sociológica; este "não saber" é a principal estratégia de dominação imposta e desgraçadamente assimilada pela imensa maioria de negros do Brasil. É a prostração ideológica de principal definição e que possibilita, por conseguinte, formas outras de submissão de ao menos, dois terços da humanidade.

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O "não saber", o "não saber-se negro" é o mais amplo e moderno investimento de desintegração de um povo e que se mantem firme e promissor por quase quinhentos anos; é a cisão necessária e definitiva para qualquer lógica de dominação, é enfim, a oposição sistêmica ao desiderato soberano e central para a feitura de um povo livre e dono do próprio destino.

Finalmente, se está a tratar de requintada operação espiritual e mental e que não permite o auto-reconhecimento e, evidentemente, se não me conheço ou re-conheço como indefectível resultante individual e coletiva advinda de longo processo antropo-formativo não posso, notadamente, reconhecer o meu presente, suas características e determinações. Terei o presente vivido e revivido como algo autônomo, independente e sem vinculações com este mesmo passado. Nada mais perigoso e danoso para aqueles que sonham em ser homens/mulheres livres.

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