Apelidação: um ato de palavra
À primeira vista, pareceu-me uma piadinha meio sem graça o dizer de um formador de opinião ao referir-se ao Presidente eleito como Janjo
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Durante a última campanha presidencial me acostumei ouvir, nos mais variados lugares: Lá em casa todo mundo é Lula! Aqui somos Lula! Lula! Lula lá! Na tradicional padaria do bairro, alegrou-me receber o pão-na-chapa, acompanhado de um dizer discreto do chapeiro – sou Lula! Favorável ou não a Luiz Inácio ninguém arriscaria a negar a potência do significante Lula na nossa cultura política.
À primeira vista, pareceu-me uma piadinha meio sem graça o dizer de um formador de opinião ao referir-se ao Presidente eleito como Janjo. Isso passaria batido se isso não estivesse sendo veiculado desde sua Live (19/12/2022, 23hs) no canal Brasil 247. Canal esse respeitado por seu compromisso com a práxis de esquerda.
Paradoxalmente seu discurso desmedido sobre seu gosto por mulheres, entrelaçado a uma pretensa fala politizada, em um tom militante, este comunicador tratava da importância das mulheres e dos negros ocuparem os Ministérios do próximo governo, chegando mesmo a esquecer dos povos indígenas.
Uma das mensagens do chat ponderando esse seu ato de apelidação (Janjo) foi lida com certo desdenho pelo formador de opinião, como se aquilo não passasse de uma nova brincadeirinha inocente que ele acabara de descobrir. E assim, ele gozava com seu novo brinquedinho. Sem ao menos dar meu Like, preferi sair... Já que um chiste, como manifestação do inconsciente, só funciona com a cumplicidade do ouvinte para rir da piadinha. Aqui interessaria mais evocar aquilo que Lacan chama de chiste: um ato de enunciação, um ato de palavra.
O que significaria esse substitutivo Janjo de Lula? O senhor Luiz Inácio escolheu incluir seu apelido - Lula - em seu nome pelo peso do seu significado político, construído nas suas relações sociais. O que seria Luiz Inácio da Silva sem o intruso Lula no meio do seu nome de batismo? Como tal, Lula é uma invenção sua e não de seus pais.Janja é uma invenção da sua esposa. Quais são as consequências dessa violência simbólica - a substituição da sua invenção – Lula – pela da sua esposa Janja, dita no masculino (Janjo)? Justo nesse contexto em que a Senhora Rosângela da Silva, a Janja está implicada com a política das mulheres seu apelido é banalizado, desqualificado ao ser dito no masculino. Do mesmo modo, desqualifica-se a potência do enunciado Lula que está em jogo nessa brincadeirinha, nada inocente. Se não fosse colocado no lugar do sobrenome do Presidente, isso poderia até ser escutado como um neologismo fofo: Janja-Anjo?
Distinguiria para todos alguma diferença importante da nova fase madura do Lula 3 com que atributos? Vitalidade amorosa, energia longeva, virilidade masculina? No contexto desta Live, entre as várias mensagens cifradas sugeridas nesse ato de palavra do formador de opinião - chamar Lula de Janjo, próprias do machismo estrutural, destaca-se aquela associada ao poder dos “homens, brancos...”, como o próprio comunicador descreveu os ditos políticos, velhos, poderosos. Isso em uma Live, com mais de 2 mil pessoas assistindo, é uma responsabilidade.Neste instante a figura da esposa do Presidente eleito está na mira da mídia conservadora e dos bolsonaristas.
Um veículo de comunicação alternativo considerado de esquerda, como o Brasil 247, carece fazer a diferença, ou não? Uma Live infeliz.
“Pistoleira sem pistola”, título de outra Live desse mesmo formador de opinião, em outro respeitado Canal de esquerda, referindo-se à Zambelli. Sem entrar no mérito da conotação sexual desse ato de apelidação – pistoleira, no mesmo estilo desrespeitoso, extremistas destrataram Dilma na ocasião do Golpe de 2016, Glaisi durante a prisão de Lula, Maria do Rosário na Câmara, as jovens venezuelanas do entorno de Brasília entre tantas outras Marias...
Depois apelidar uma mulher da extrema direita, independente dos seus atos, com a mesma deselegância, ou agressividade dos extremistas, nada tem a ver com a política dos Direitos Humanos defendida pela esquerda.
Seguindo a trilha do Marco Aurélio Carvalho na escolha do significante delicadeza (sorrindo) como norteador da organização do “Ato do TUCA: Lula e Haddad” (Prerrogativas-PUC-SP. 2022), que coordenou com muita alegria - vamos cuidar de nós mesmo?
O jogo só está começando.
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