Amanhã vai ser outro dia?
O nível de trauma e tragédia em que está mergulhado o país não deixa dúvida que o primeiro e urgente passo é dar basta a Bolsonaro
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Muito se fala, e com toda a razão, da trágica gestão de Bolsonaro na presidência da República. Mas gostaríamos de lançar o olhar sobre as oposições a esta catástrofe. De onde vem? Apesar de Bolsonaro, amanhã vai ser outro dia? Vamos passear rapidamente sobre as vozes que tem se oposto ao presidente, e refletir brevemente sobre o que pode surgir de ideias alternativas vindas dessa oposição.
As oposições que tem se manifestado são múltiplas e variadas, pois o governo federal tem sido competente em conseguir adversários. As vozes de maior repercussão nesse momento de isolamento social vêm das oposições da direita tradicional. Ela lidera estados importantes economicamente, e está na presidência das duas casas legislativas, tem os microfones da Globo e o aparato dos principais jornais e revistas da mídia empresarial. A ruptura do ministro Sergio Moro com o governo reforça o discurso dessa direita que tem batido em três pontos principais: a irresponsabilidade genocida de Bolsonaro estimulando o aumento de mortes ao negar o isolamento; sua escalada autoritária ao ameaçar Congresso, Supremo e jornalistas; e as denúncias trazidas por Moro ao Jornal Nacional desde sua saída do governo, que já renderam abertura de inquérito pelo Supremo Tribunal Federal.
Outro setor dessa oposição é a esquerda. Sua principal arma, as manifestações de rua, está impedida pela pandemia. Lidera, contudo, governos estaduais em boa parte da região Nordeste, de onde tem partido ações comoventes de resistência às medidas tresloucadas vindas do Planalto. O que explica um estado que administra modestos recursos como o Maranhão, conseguir centenas de respiradores que outros estados com mais recursos não conseguiram? Como esse estado consegue remunerar dignamente professores e demais servidores de seu quadro funcional, sem atrasar salários? Os governadores do Nordeste fizeram um consórcio que lançou o Projeto Mandacaru, que constitui uma rede de pesquisa destinada a combater o COVID 19, coordenada pelo prestigiado neurocientista Miguel Nicolelis. As lições do Nordeste são um Mandacaru que flora na seca paisagem de ideias que virou o debate nacional. São elementos importantes que podem ser a semente para uma nova alternativa. Mas ela efetivamente surgiu? É visível? Quais seus contornos?
Para responder à pergunta proposta no início desse artigo se amanhã será outro dia, é preciso mirar com atenção o dia de hoje e o de ontem. O que hoje consome o Brasil, esse vírus letal que ocupa a presidência da República, corroeu por dentro a antiga polarização política PT x PSDB e conseguiu suplantá-la. O desalento e a descrença com a política tradicional, estimulado dia e noite por década e meia, acabou por diminuir a imunidade do país, permitindo a ação desse vírus que avançou rapidamente.
Será possível produzir uma vacina? Ora, um vírus fundamentalmente ideológico deve ter uma vacina também no campo das ideias. As pessoas precisam de generosas injeções de ideias-força capazes de mover a sociedade no sentido de expulsar essa patologia. E que ideias seriam capazes de mover as principais forças que constroem esse país?
As duas principais forças que continuam construindo essa formidável nação ainda podem ser resumidas pelas palavras produção e trabalho. Continua sendo a relação do capital produtivo com o trabalho que gera a riqueza. Essa relação, contudo, é de conflito e precisa ser mediada pelo Estado. A profunda crise que vivemos é que o Estado tem sido incapaz de mediar satisfatoriamente essas duas forças, pois está sujeitada aos interesses do capital rentista e do poder das grandes potências internacionais. Como serve a estes senhores externos, não consegue atender nem mesmo aos interesses da produção, muito menos os do trabalho. A democracia, assim, perde sentido, pois o voto universal passa a não ter valor, se não prevalece os interesses de quem vota. Não é uma exclusividade do Brasil. Essa crise política é parte de uma grave crise do modelo democrático ocidental.
Superar essa crise passa por uma unidade da produção e do trabalho para enfrentar os interesses do rentismo e defender os interesses nacionais frente às grandes potências. É preciso apontar para um novo projeto nacional de desenvolvimento, que preveja a capacitação de empresas grandes, médias e pequenas para produzir em sintonia com a chamada sociedade do conhecimento e suas transformações tecnológicas. Que seja capaz de resgatar da informalidade e da precarização milhões de brasileiros que trabalham em condições aviltantes nessa era de aplicativos e da chamada uberização do trabalho. Que reduza as desigualdades regionais estimulando novos pactos federativos que observam as especificidades de cada macro e microrregião desse Brasil de muitos Brasis, aproveitando as lições dessa inovadora experiência do consórcio Nordeste, por exemplo. Que reconfigure o Estado para que possa agir com eficiência na coordenação desse projeto.
O nível de trauma e tragédia em que está mergulhado o país não deixa dúvida que o primeiro e urgente passo é dar basta a Bolsonaro. Criminosamente, ele estimula o avanço da COVID-19, ameaça a democracia, e está implicado em uma série de denúncias de diversos crimes que precisam ser apurados. Mas o dia depois de Bolsonaro já deve ser pensado imediatamente. É possível um projeto que una esquerda e o centro democrático em torno dos interesses da produção e do trabalho? Esse é o trajeto que devemos perseguir e buscar construir, mesmo em meio a tempestade e a escuridão. Amanhã vai ser o outro dia que as forças que se opõem a Bolsonaro conseguirem produzir.
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