Alckmin e as circunstâncias
"Lula se aliou a Geraldo Alckmin para compor com ele a ala do 'partido de Tiradentes'”, escreve Gerson Jorio
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Por Gerson Jorio
“- Vai mais acima, gajeiro, Sobe no tope real! / Vê se vês terras de Espanha, /Areias de Portugal! - Alvíssaras, capitão, /Meu capitão-general! / Já vejo terras de Espanha, Areias de Portugal!”
(Do Romance da Nau Catarineta, poema anônimo do Século XVI)
Nasci em Pindamonhangaba no mesmo ano em que nasceu Geraldo Alckmin. Fui conhecê-lo quando fiz o exame de admissão e ingressei no ginásio, atual ensino fundamental. Na mesma escola, cursamos também o correspondente ao atual segundo grau, o curso científico. Foram quatro anos de ginásio e o primeiro científico na mesma sala, depois, com a morte de meu pai, tive que mudar para o período da noite. Concluímos o curso em 1970.
Em 1972, o doutor Paulo de Andrade, presidente do diretório municipal do MDB, partido que fazia oposição à ditadura e lutava pela volta da democracia, procurava um candidato que representasse a juventude, para que, juntamente com o jovem candidato a prefeito doutor João Bosco Nogueira, pudessem vencer as eleições municipais e interromper o reinado dos representantes da Arena, partido do governo. Andrade filiou Alckmin, com 19 anos e ainda no primeiro de Faculdade de Medicina (ver a história completa da filiação no meu livro Vergonha Alheia).
Foi uma campanha difícil, os eleitores da Arena diziam que os jovens da oposição, se ganhassem, iriam botar fogo na cidade. Naquela época, os comícios atraíam uma grande quantidade de pessoas. Terminavam tarde, onze, onze e pouco da noite. Geraldo, ainda tímido, ajudado por seu pai, que sempre assistia aos comícios de longe, convencia e encantava os eleitores, dizendo que a “Princesa do Norte” precisava trocar suas vestes imperiais por um macacão de operário. Sugerindo que a cidade precisava de indústrias para empregar seus filhos, que a deixavam em busca de oportunidade em outras cidades. Eu mesmo já estava trabalhando em uma fábrica em São José dos Campos. Geraldo encerrava seu discurso assim: Alvíssaras meu capitão, terra à vista! / Terra da boa esperança, terra das indústrias, terra das oportunidades, terra de Pindamonhangaba!
A oposição venceu e a cidade realmente cresceu. Daí para a frente, Alckmin foi prefeito, deputado estadual, deputado federal, colega de Lula na elaboração da constituição federal e vice-governador, sempre com o nosso apoio e entusiasmo.
A partir de 1996, algumas coisas começaram a mudar: Fui demitido da fábrica e prejudicado na busca de um novo emprego, por causa de modismos estrangeiros incorporados às empresas brasileiras. Buscando opções, fui compelido a ingressar na docência. Naquela ocasião, o PSDB já tinha sido fundado e começava a se voltar para a direita. Na escola, comecei a sentir os efeitos de políticas que desvalorizavam os profissionais da educação e pioravam a qualidade do ensino. Aprofundei-me no estudo das novidades advindas dessas políticas. À medida que me informava, crescia minha oposição ao neoliberalismo. Passei a ser oposição ao PSDB. Passei a militar na APEOESP. Fui coordenador da subsede de Pindamonhangaba, diretor estadual e diretor executivo da entidade. A leitura constante e a reflexão me fizeram compreender o esforço realizado por nossos antepassados para garantir nossa soberania, evolução social, democracia e progresso, conquistas essas ameaçadas, de tempo em tempo, por ditaduras, abertas ou disfarçadas.
No livro “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, Paulo Nogueira Batista Jr., escreve na página 321: “O grande jornalista Barbosa Lima Sobrinho disse, certa vez, que o Brasil sempre teve só dois partidos: o de Tiradentes, o partido da autonomia e da independência; e o de Silvério dos Reis, o partido da subordinação e da entrega”.
Hoje, em pleno 2022, temos pela frente uma eleição com Bolsonaro, extrema direita, ameaças de golpe à nossa democracia e liberdade, guerras híbridas e ondas de fake news.Agora, não é somente em Pindamonhangaba que o povo precisa de solução para as suas aflições. No Brasil de hoje, há falta de empregos, as desigualdades sociais são crescentes, a democracia e a liberdade precisam ser protegidas.
Lula se aliou a Geraldo Alckmin para compor com ele a ala do “partido de Tiradentes”. Gente esbraveja por todos os lados. Mas, como uma das minhas manias é estudar eleições proporcionais, adquiri, através da observação de muitas evidências empíricas, a convicção que somente com alianças conseguiremos vencer esse episódio.
Dessa forma, conclamo meu conterrâneo e antigo colega de escola: Una-se a Lula e lute para que em dois de outubro possamos bradar em forte e alto som: Alvíssaras meu capitão, terra à vista! / Terra da boa esperança, terra das oportunidades, terra do Brasil brasileiro!
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