A velha imprensa ainda controla a opinião pública

Muitos afirmam quem em plena era da informação e da Internet a mídia brasileira não seria capaz de tramar um golpe de Estado, manipular e esconder notícias da população. Mas e se a imprensa brasileira fosse composta de uma diminuta oligarquia, coesa em um cartel midiático, eficiente em controlar as informações e em passar a imagem de séria, competente e imparcial?

globo
globo (Foto: Mirela Filgueiras)


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Muitos afirmam quem em plena era da informação e da Internet a mídia brasileira não seria capaz de tramar um golpe de Estado, manipular e esconder notícias da população.

Cartel midiático       

Mas e se a imprensa brasileira fosse composta de uma diminuta oligarquia, coesa em um cartel midiático, eficiente em controlar as informações e em passar a imagem de séria, competente e imparcial?

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 “A literatura política brasileira tem utilizado o termo coronelismo como uma forma peculiar de manifestação do poder privado, com base no compromisso e na troca de proveitos com o poder público. A ciência política trata como coronelismo a relação entre os coronéis locais, líderes das oligarquias regionais, que buscavam tirar proveito do poder público, no século XIX e início do século XX. Hoje, não há como deixar de se associar esse termo aos atuais impérios de comunicação mantidos por chefes políticos oligárquicos, que têm, inclusive, forte influência nacional. O compadrio, a patronagem, o clientelismo, e o patrimonialismo ganharam, assim, no Brasil, a companhia dos mais sofisticados meios de extensão do poder da fala até então inventados pelo homem: o rádio e a televisão.” (IGARCIA, 2002)

A maioria da nossa sociedade tem uma visão muito romântica e equivocada a respeito da mídia. Acredita que o único propósito da imprensa é informar, contar a verdade aos cidadãos, monitorar os políticos e denunciar as mazelas sociais. No imaginário popular o jornalismo está alheio aos interesses econômicos, o brasileiro não enxerga o jornalismo como parte de uma empresa familiar, de uma oligarquia que usa o coronelismo eletrônico para manipular a opinião pública.

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            Isso é o que inferimos do Relatório de Jornalismo Digital 2017 que aponta que “60% dos entrevistados no Brasil confiam nas notícias veiculadas pelas empresas de comunicação — atrás apenas da Finlândia, com 62%.” (O GLOBO, 2017).

Considerando que apenas oito famílias controlam 64% da mídia brasileira, esse tipo de confiança exacerbada é o resultado de um forte e competente cartel midiático. Primeiro, atesta a ignorância da nossa população em não entender o jornalismo como uma empresa privada que visa o lucro e cujo produto são as notícias, embaladas pelos funcionários (os jornalistas) de acordo com o viés do patrão; segundo, mostra o desconhecimento em saber que esses patrões são também os políticos e empresários locais e regionais que estão a defender seus próprios interesses.  E em terceiro, a alienação da nossa própria história.

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“A imprensa foi arauto da trama golpista contra o presidente João Goulart. Sempre conservadores, os “barões da mídia” brasileira agem na fronteira do reacionarismo. Apoiar golpes, por isso, não chega a ser exatamente novidade. Alardeiam o princípio do liberalismo sem, no entanto, se comprometer com a democracia. Assim promovem feitiços, como o de 1964, e tornam a própria imprensa vítima da feitiçaria.” (DIAS, 2013).

Os outros países cuja população mais confia nos meios de comunicação são: em primeiro lugar, Finlândia com 62%; em terceiro, Portugal, 58%; em quarto, Espanha, 51%; em quinto, Alemanha, 50% e em sexto, Reino Unido com 43%. Uma análise da mídia nesses países demonstra que o Brasil, segundo colocado, é mais que um ponto fora da curva, é um fato bizarro e vergonhoso que prova nossa alienação e submissão ao poder da mídia.

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“Apesar de ser um país pequeno (...), a Finlândia possui um mercado de mídia diversificado e de alta qualidade.” (Weaver, 2016). A confiança dos finlandeses é corroborada pelo Índice Mundial de Liberdade de Imprensa, publicado anualmente pela organização Repórteres sem Fronteiras.

A Finlândia liderou, até 2016, por sete anos seguidos este índice, atualmente está na quarta posição. O Brasil está em 102º lugar, de uma lista de 180 países. A posição é atribuída levando em consideração “critérios relativos à independência, ao pluralismo dos meios de comunicação, ao fluxo transparente de informações, marcos legais, segurança e  liberdade dos jornalistas.” (Weaver, 2016).

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Ainda segundo o Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2018, Portugal encontra-se no 14º lugar, a Espanha ficou na 31ª colocação, a Alemanha na 15ª e Reino Unido com o 40º lugar.

            Exceto o Brasil, nos demais países cuja população mais confia na mídia, as principais emissoras de televisão são públicas.  

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 “As televisões públicas têm sua origem no surgimento da televisão na Europa, por iniciativa do Estado. Todas elas - na Alemanha, na França, na Inglaterra e em outros países - nasceram como televisões estatais, controladas pelos governos nacionais. O fortalecimento da democracia e da cidadania, no pós-guerra, impôs o controle público, a participação da sociedade na gestão das emissoras e a criação de conselhos de representantes. Esta é a origem de televisões públicas como a BBC inglesa, a TVE espanhola, a France Televisón, a RAI italiana, a RTP de Portugal, a ARD e a ZDF, alemãs, entre outras.” (EBC).

E, exceto o Brasil, possuem entidades reguladoras da mídia.

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A Finlândia possui o Conselho para Meios de Comunicação Social, formado por editores de mídia e pelo sindicato nacional dos jornalistas, que tem como objetivo “defender a liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, garantir a boa prática jornalística, lidando também com reclamações através da auto-regulação.” (Weaver, 2016).

Em Portugal, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) regula a mídia deste Fevereiro de 2006. De acordo com o site da ERC, seu objetivo primordial é “a regulação e supervisão de todas as entidades que prossigam actividades de comunicação social em Portugal” (ERC).

Na Espanha existe um órgão regulador central de abrangência nacional, o Conselho Estatal de Meios Audiovisuais, “que tem atuação independente – as transmissões circunscritas às comunidades autônomas espanholas obedecem à legislação destes territórios e contam com órgãos reguladores específicos.”. (INTERVOZES, 2010).

A Alemanha conta com a Conferência dos Diretores das Autoridades Estaduais de Mídia (DLM), que é o órgão central executivo, formado pela Associação das Autoridades Estaduais de Mídia da República Federal da Alemanha (ALM) que abrange um total de 14 autoridades estaduais de regulação dos meios de comunicação. “Cabe à ALM a regulação das emissoras de radiodifusão de cobertura nacional, além da coordenação e unificação de procedimentos das autoridades estaduais de mídia.” (INTERVOZES, 2010).

No Reino Unido a regulação é exercida pelo Office of Communication (Ofcom), que possui as missões de “promover a concorrência, a pluralidade, a informação dos cidadãos e a diversidade cultural, servir os interesses dos cidadãos/consumidores, apoiar a inovação e o investimento nestas áreas.” (ANACOM, 2004)

Uma concessão pública para os aliados

“Em primeiro lugar, é preciso lembrar que a radiodifusão é, assim como a energia, o transporte e a saúde, um serviço público que, para ser prestado com base no interesse público, requer regras para o seu funcionamento. No caso das emissoras de rádio e TV, a existência dessas regras se mostra fundamental em função do impacto social que têm as ações dos meios de comunicação de massa, espaço central para a veiculação de informações, difusão de culturas, formação de valores e da opinião pública.”. (INTERVOZES, 2014)

Mas, quando o assunto é a regulação dos meios de comunicação no Brasil, os donos da mídia são unânimes em classificar de censura e evocar a ditadura militar como exemplo de um período sem liberdade de expressão. A mesma ditadura que a Folha de São Paulo classificou de “ditabranda” em editorial de 17 de fevereiro de 2009. Fica a dúvida, a ditadura militar brasileira foi realmente um período sombrio para os grandes veículos de comunicação ou foi uma ditabranda para os donos da imprensa?

A historiadora doutora Beatriz Kushnir, autora do livro Cães de Guarda - Jornalistas e Censores, do AI-5 à Constituição de 1988 (Editora Boitempo), responde essa pergunta com muita clareza: “’Eu reviso essa ideia de resistência e mostro que houve, no lugar disso, um grande colaboracionismo’, explica Kushnir. ‘Se houve resistência, esta está nos veículos alternativos e não na grande na imprensa’.” (GOMBATA, 2014)

“(...) a doutora em história lembra que antes mesmo de os militares tomarem o poder, a própria imprensa pedia o golpe em colunas e editoriais, como o Fora!, no qual o Correio da Manhã pediu a saída de João Goulart em 1º de abril de 1964, data em que o golpe foi consolidado.” (GOMBATA, 2014).

Em sua pesquisa, Kushnir verificou que a quantidade máxima de censores foi de 220 para todo o País e que a autocensura nas redações foi o que realmente possibilitou o cumprimento das ordens dos militares e a continuidade da empresa.  “A televisão é uma concessão pública e por isso a necessidade de que ela andasse muito alinhada com o governo, porque, caso contrário, a concessão seria retirada”, analisa Beatriz Kushnir. (NO AR, 2014).

As concessões de radiodifusão no Brasil sempre foram moeda de troca

“Instrumentos de poder e de troca de favores e interesses, as concessões de rádio e televisão têm servido, no Brasil, como moeda de troca entre o Governo Federal e o setor privado. Entre 1985 e 1988, o então Presidente Sarney concedeu um grande número de licenças de emissoras de rádio e TV para empresas ligadas a parlamentares federais, os quais ajudaram a aprovar a emenda que lhe deu 5 anos. Já na era Fernando Henrique Cardoso, até setembro de 1996, foram autorizadas 1.848 licenças de RTV, repetidoras de televisão, sendo que 268 para entidades ou empresas controladas por 87 políticos, todos favoráveis à emenda da reeleição.” (IGARCIA, 2002).

O Mundo está errado

Mais um fato que demonstra a alienação da maioria do povo brasileiro em relação às mentiras da nossa mídia é o impeachment de 2016.

Os mais respeitados veículos da mídia internacional foram enfáticos em classificar o impeachment da presidenta Dilma Rousseff como golpe jurídico-parlamentar.

“Ao contrário do que têm pregado alguns dos maiores jornais e boa parte da grande mídia brasileira, signatários do golpe, para os maiores jornais do mundo fora do Brasil, ‘Dilma é vítima de um "golpe" encenado por seus adversários’ (Le Monde), e que os senadores se ‘uniram pela retirada de Dilma sabendo que seria injusto’(The Washington Post), em concordância com a rede RT, que diz que ‘60% do congresso é acusado de corrupção e contra-ataca Dilma, que tentou fazer uma limpeza no congresso’.” (BRASIL247, 2016)

Até o Papa Francisco acusou a imprensa de difamação com a finalidade de provocar golpes de Estado.

“Francisco condenou o golpe de maneira dura. Sem citar o Brasil ou o nome de Lula diretamente, fez uma descrição perfeita do que acontece no país. O Papa descreveu à perfeição a situação brasileira: ‘a mídia começa a falar mal das pessoas, dos dirigentes, e com a calúnia e a difamação essas pessoas ficam manchadas’. Depois chega a justiça, ‘as condena e, no final, se faz um golpe de Estado’.” (BRASIL247, 2018).

            Outras demonstrações do Papa Francisco corroboram que essa fala foi uma referência a Lula e à mídia brasileira. Em 2016, o Papa escreveu uma carta à Dilma Rousseff, que revelou: “‘Ele (Francisco) escreveu uma carta para mim, mas não vou declarar nada mais sobre o tema, somente direi que não foi uma carta oficial, (...), não é uma carta para ser divulgada”, declarou Dilma.”. (BRASIL247, 2016).

No ano passado, 2017, o Papa Francisco enviou um presente para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva: “uma cópia da encíclica "Laudato Si"; ao receber a prenda, Lula manifestou interesse pelos encontros do papa com movimentos populares de todas as partes do mundo e transmitiu sua preocupação com a profunda crise política do Brasil.” (BRASIL247, 2017).

Considerações finais

Manipular a opinião pública continua sendo tarefa fácil para a mass media. Pela segunda vez a imprensa brasileira ajuda a engendrar e a manter um golpe de Estado. A população tem confiança na mídia, acredita que está bem informada, que o que ouve e lê é verdade. “É verdade, saiu no jornal.”

Referências:

ANACOM. Reino Unido com novo regulador – Ofcom. Disponível em: <https://www.anacom.pt/render.jsp?contentId=148976>. Acesso em: 15 maio. 2018.

BRASIL247. Imprensa do Mundo Não Vê Mistério: É Golpe. Disponível em: <https://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/252625/Imprensa-do-mundo-n%C3%A3o-v%C3%AA-mist%C3%A9rio-%C3%A9-golpe.htm>. Acesso em: 17 maio. 2018.

BRASIL247. Papa Condena Golpes Forjados pela Mídia. Disponível em: <https https://www.brasil247.com/pt/247/mundo/355176/Papa-condena-golpes-forjados-pela-m%C3%ADdia.htm>. Acesso em: 17 maio. 2018.

BRASIL247. Lula Recebe Presente do Vaticano. Disponível em: <https://www.brasil247.com/pt/247/brasil/298172/Lula-recebe-presente-do-Vaticano.htm>. Acesso em: 17 maio. 2018.

BRASIL247. A Carta do Papa para Consolar Dilma. Disponível em: <https://www.brasil247.com/pt/247/brasil/250864/A-carta-do-Papa-para-consolar-Dilma.htm>. Acesso em: 17 maio. 2017.

DIAS, Maurício. A Mídia na Ditadura. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/politica/a-midia-na-ditadura>. Acesso em: 15 maio. 2017.

EBC. TV Pública no Mundo. Disponível em: <http://memoria.ebc.com.br/tv-publica-ebc/tv-publica-no-mundo>. Acesso em: 15 maio. 2018.

ERC. Sobre a ERC. Disponível em: <http://www.erc.pt/pt/sobre-a-erc/>. Acesso em: 16 maio. 2018.

FRONTEIRAS, Repórteres sem. Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa 2018. Disponível em: <https://rsf.org/pt/ranking/2018>. Acesso em: 15 maio. 2018.

GOMBATA, Marsílea “Imprensa aceitou a censura”, diz historiadora. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/sociedade/201cimprensa-aceitou-e-se-adaptou-a-censura201d-diz-historiadora-6924.html>. Acesso em: 15 maio. 2018.

IGARCIA. Base governista domina concessões de radiodifusão. Disponível em: <http://observatoriodaimprensa.com.br/primeiras-edicoes/base-governista-dominaconcesses-de-radiodifuso/>. Acesso em: 16 maio. 2018.

INTERVOZES. Regulação da radiodifusão na Espanha. Disponível em: <http://intervozes.org.br/regulacao-da-radiodifusao-na-espanha/>. Acesso em: 16 maio. 2018.

INTERVOZES. Regulação da radiodifusão na Alemanha. Disponível em: <http://intervozes.org.br/regulacao-da-radiodifusao-na-alemanha/>. Acesso em: 16 maio. 2018.

INTERVOZES. Regulação da mídia não é censura. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/blogs/intervozes/regulacao-da-midia-nao-e-censura-2340.html>. Acesso em: 16 maio. 2018.

NO AR. A influência da mídia no período da ditadura. Disponível em: <http://tvbrasil.ebc.com.br/vertv/episodio/a-influencia-da-midia-no-periodo-da-ditadura>. Acesso em: 17 maio. 2018.

O GLOBO. Brasil registra segundo maior índice de confiança na mídia. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/economia/brasil-registra-segundo-maior-indice-de-confianca-na-midia-21532738>. Acesso em: 15 maio. 2018.

Weaver, Fran. Finlândia Lidera Índice Mundial de Liberdade de Imprensa. Disponível em: <https://finland.fi/pt/vida-amp-sociedade/finlandia-lidera-indice-mundial-de-liberdade-de-imprensa/>. Acesso em: 15 maio. 2018.

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