A negação da realidade
Pode-se dizer, nessa via da "negação", que o "estopim" do Golpe contra a Presidenta Dilma Rousseff foi aceso pelo "desmentido perverso" dos políticos derrotados (que "perderam" a possibilidade de "falo" – "poder" – de "completude da mamãe"), associados ao capital e a mídia perversa
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Desde a vida do Homem na Terra, pode-se dizer que a “negação” é um mecanismo humano universal. Nega-se tudo: que traiu, roubou, mentiu, golpeou... Inclusive “nega-se” que “nega-se”.
A “negação” é uma verdadeira “companheira” do Homem, dia a dia, lado a lado, mesmo que às vezes ele não se dê conta disso.
Pode-se dizer, com a Psicanálise, que a “negação” é a estrutura inabalável do sujeito, construída a partir de sua mais tenra infância.
Mas o que é essa “negação”?
Obviamente, é “não-aceitação” de “alguma coisa”.
“Não-aceitação” de quê? Que “alguma coisa” é essa?
A “negação” só pode ser a “não-aceitação” de “uma realidade” – de “alguma coisa”.
Portanto, o mecanismo da “negação”, estrutura elementar de todos nós, nossa “companheira infantil eterna”, sempre se apresenta quando “determinada realidade” – “alguma coisa” – surge diante de nós.
Mas que “alguma coisa” é essa?
Também só pode ser uma: “uma realidade insuportável”.
Portanto, diante de uma “realidade insuportável”, a nossa “amiga” “negação” entra em cena automaticamente (na maioria das vezes, sem que seja de forma consciente). E é por isso que ela é automática, pois estruturalmente inconsciente.
Então, pode-se dizer que a “negação” é um mecanismo eminentemente “inconsciente”. Talvez a forma mais banal, embora bastante contundente de negar a “realidade insuportável” é utilizar-se da “mentira”, posto que a “mentira” é categoricamente a “negação” de “alguma coisa”.
Conforme dito, a “negação” é a principal estrutura do psiquismo e nos acompanha desde a mais remota infância, quando nos defrontamos com a primeira e mais elementar “realidade insuportável”: a ausência do peito da mamãe.
Essa “realidade insuportável” definitivamente marcante e indelével (estrutural) vivenciada pelo pequeno infans e que o acompanha “eternamente”, se esboça a partir dos fenômenos da “privação” e da “frustração” em face a “algo” que ele necessita (alimento, cuidados físicos) e deseja (carinho, proteção, amor).
Mesmo empanturrado do “leite materno”, ele quer mais o peito e mais e mais... É comum a mãe não perceber que o infans não necessita mais de leite, escancarando o peitão e enfiando o bico calejado na entrada de seu aparelho digestivo (boca).
Ele não quer mais leite, mas ele ainda não sabe falar... Ele quer ficar colado na mamãe, o seu verdadeiro objeto do desejo. E a mamãe desavisada acredita que “um completa o outro e vice-versa” ...
Embora a mãe desavisada possa lhe faltar eventualmente, o choro do infans assombra o seu sono, fazendo com que ela coloque a sua “cria” ao seu ladinho, coladinha...
O infans “frustra-se” com a ausência da mamãe, embora não esteja “privado” do alimento e dos cuidados físicos (moradia, agasalho...).
Portanto, a ausência da mamãe é a primeira e decisiva “realidade insuportável” para todos nós...
A criança começa então a “imaginar”, a seu modo, que é o “objeto de completude da mamãe” – importante, “imaginar” –, ela “imagina” que “é” ou “possui” “algo” (“o falo – significante do desejo”) que falta a mamãe. E qualquer coisa que “frustre” esse seu “imaginário” passa a ser extremamente angustiante ou mesmo intolerável. A criança inicialmente fica presa no “eu sou o objeto que completa a mamãe” ou/e “eu tenho aquilo que completa o desejo da mamãe”.
Esse desejo “imaginário” da criança tende a durar muito pouco tempo, pois a mamãe começa a dar vistas e pistas à criança que o seu desejo se dirige a um outro: “o papai ou afins (trabalho, estudo, o outro filho...)”. O “pai simbólico” entra em cena, aquele “significante” que entra na “cadeia discursiva significante” do desejo da mãe e que “incomoda” a criança.
Assim, a criança passa a questionar-se enquanto o verdadeiro e único objeto do desejo da mãe. Dura realidade que se defronta ao infans.
Contudo, e o que é estrutural, é a forma como a criança vai vivenciar essa realidade: a sua incompletude, posto que a mamãe não o completa nem ele completa o desejo da mamãe.
De suposto “objeto exclusivo do outro (mãe)”, a criança terá que conviver com esse seu “engano imaginário” de exclusividade. Agora tem um “terceiro elemento” na tríade relacional – antes eram apenas dois: criança e mãe, que a criança desejava que fosse um (criança-mãe) –, chamado de “pai simbólico”, figura traumática para a criança, a quem a sua mamãe dirige o desejo.
Além da “privação” e da “frustração”, agora surge um novo elemento terrível: a “castração” da suposta díade: mãe-criança. Esse “pai simbólico” faz operar no “imaginário infantil” uma resposta defensiva possível: a “negação” dessa “indesejável realidade trágica” que se erigiu. A criança não completa a mamãe; a criança não é nem tem o “falo” (“significante do desejo”) da mãe.
Resta-lhe, portanto, diante dessa “lúgubre realidade” (“castração”) o mecanismo da “negação”.
Assim, a criança terá à sua disposição “três formas de negar” a sua “realidade insuportável”:
Em forma de “recalque” (“neurose”), tentando eliminá-la do campo da consciência, embora ela sempre retorne como “sintomas’; em forma de “desmentido” (“perversão”) no qual o psiquismo opera com duas realidades de forma concorrentes (“clivagem”), – uma espécie de “isolamento” da “realidade insuportável” de um lado e de outro a sublevação da sua incompletude em “objeto-fetiche” para tentar “apagar” a “falta-a-ser” na qual a “criança insignificante” se sucumbiu.
Ou seja, na “negação perversa” a criança reconhece a realidade insuportável, porém a “desmente” e a “isola” (“clivagem” – “divisão psíquica”), construindo paralelamente uma outra “realidade suportável”, contudo “fetichizada” (na qual a criança ainda é ou tem o objeto de completude da mamãe).
E, finalmente, temos a “negação” em forma de “foraclusão” (“psicose” – “loucura”) em que o sujeito (criança) não tolera em hipótese alguma a “castração”, “repudiando-a” veementemente (“recusa”) e “expulsando-a” definitivamente do campo da consciência, embora ela retorne em forma de real no “delírio” e na “alucinação”.
Temos, assim, três formas básicas infantis de “negação”[1]: a denegação da Lei (“castração”) em forma de recalque (“Verdrängung”) na neurose; o desmentido (“Verleugnung”) da Lei (“castração”) em forma de “clivagem” na “perversão” e a foraclusão (“Verwerfung”) da “castração” (Lei) na psicose.
Contudo, diga-se de passagem, as estruturas referidas são determinantes para o “sujeito do inconsciente” (esse mesmo que está aqui e aí pulsando), prevalecendo sempre uma delas na “atualidade” da “repetição transferencial” do sujeito com o Outro com o qual se defronta no dia a dia (o amigo, a esposa, o vizinho, o chefe, a empregada, o juiz, a lei, o político, a eleitora, a linguagem, o amante, o analista...).
Dito isso, no nível psicossocial e político, assistimos recentemente no Brasil a um grande mecanismo da “negação” de determinada parcela da população brasileira diante da ‘insuportável” vitória eleitoral da Presidenta Dilma Rousseff nas urnas democráticas em 2014: os “denegadores” da “dramática realidade” erigida com a vitória do Partido dos Trabalhadores (PT) pela quarta vez consecutiva.
Vimos e vemos as “três formas da negação” assolarem o país de norte a sul, de leste a oeste. Não faltaram (faltam) neuróticos (poliqueixosos), perversos (sádicos) e psicóticos (delirantes) com as suas mais bizarras expressões, principalmente nas manifestações de rua convocadas pela mídia, políticos e uma elite capitalista perversa, gritando e vociferando aos quatros cantos da nossa Pátria pelo impeachment da presidenta eleita democraticamente. A “negação” como “mentira”, calúnia, ódio e ressentimento subiram ao palco social. O pequeno infans veio à tona de “verde-amarelo” como se apenas a ele pertencesse essas cores nacionais.
Entretanto, conjecturo que “essa realidade insuportável”, embora democrática, foi categoricamente “negada” por vários “cidadãos (ãs) brasileiros (as) adoecidos (as)”. Ainda estão...
Assim, pode-se dizer, nessa via da “negação”, que o “estopim” do Golpe contra a Presidenta Dilma Rousseff[2] foi aceso pelo “desmentido perverso” dos políticos derrotados (que “perderam” a possibilidade de “falo” – “poder” – de “completude da mamãe”), associados ao capital e a mídia perversa.
Daí não faltaram neuróticos e psicóticos para acompanhar a “aventura perversa”. A Lei foi contundentemente “desmentida” – inclusive pelo próprio guardião da Lei, o Supremo Tribunal Federal (STF), omisso, portanto cúmplice perverso) – e nela está estacionada até os dias de hoje.
A “perversão política, midiática e capitalista” sempre precisou dos neuróticos otários para se sustentar, numa espécie de “gozo sadomasoquista”. Contudo um “gozo mortal”, pois o perverso oferece o “objeto-fetiche” para uma “suposta completude imaginária” de seus rebanhos, “tamponando as suas faltas”, desprovidos que são da consciência e do juízo crítico, envolvendo-os numa “ciranda mercantil letal”, devastando o “campo discurso desejante do sujeito” através do cerceamento de sua “cadeia significante” pelo “processo de imaginarização da realidade”, impondo-a como natural e divinizada.
Basta deter o olhar na relação “pastor-fiel”, na qual o primeiro “mente” de forma sensacional escancarada em praça pública (cultos) ofertando ao seu rebanho o “objeto-fetiche discursivo imaginarizado da salvação e da graça dos céus” em troca de um punhado de dinheiro. Vendem-se e compram-se ilusões e mentiras perversas, “denegatórias da realidade” da vida terrestre. O neurótico otário é um grande comprador de ilusões. Em toda a História da Civilização é possível verificar o fenômeno da “perversão” e da “neurose” complementar a ele.
E quanto a “psicose”?
Bom, a “psicose” não quer saber nada disso, a sua realidade é bem mais complexa. O “autismo” lhe bem caiu melhor...
É preciso ter dignidade e aprender a conviver melhor com a “castração” (Lei), portanto, conviver melhor com as nossas “frustrações” e com o Outro civilizacional.
A democracia exige a humildade e a sabedoria para conviver melhor com as diferenças e com as perdas do cotidiano...
Ou você ainda é o bebê chorão da mamãe?
[1] SCHLACHTER, Lina e BEIVIDAS, Waldir – “Recalque, rejeição, denegação: modulações subjetivas do querer, do crer e do saber”, Scielo Brasil, Ágora (Rio J.), vol.13, nº.2, Rio de Janeiro, dezembro/2010.
[2] PRADO, Cássio Vilela – Livro: O Golpe na Presidenta Dilma Rousseff: Golpeachment, CreateSpace Amazon, Charleston, Carolina do Sul, (SC), 31/03/2017.
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