A felicidade finlandesa, os velhos amigos e os ciclos da vida
"Já perdi boa parte dos meus amigos de ginásio, colegas dos meus primeiros tempos de redação e outros que ficaram pelo caminho nos últimos tempos, em razão de divergências políticas inconciliáveis nestes tempos intolerantes e delirantes do bolsonarismo em marcha", lembra o jornalista Ricardo Kotscho, do Jornalistas pela Democracia; "Amigos que sempre respeitaram as diferenças - sou são-paulino e petista, nesta ordem - passaram a se estranhar comigo, não só ao discutir futebol, mas também porque eu me recusava a mudar de lado ou não assumir lado nenhum, como muitos deles fizeram nas últimas eleições"
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Por ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia
Cronista bom é aquele que escreve o que a gente também sente. Flagra nossos pensamentos e angústias, escracha o que apenas pressentimos.
Foi o que pensei ao ler a coluna "E se?", publicada neste domingo, na Folha, pelo jovem Antonio Prata, filho dos meus bons amigos Mario Prata e Marta Góes, enteado de outro chapa, o Nirlando Beirão, um mineiro europeu.
Nesta família de craques do bem escrever, Antonio começou seu texto assim:
"Lá pelo fim da festa, no meio de mais um papo deprimente, e idêntico a tantos outros que venho tendo nos últimos meses, cujo título poderia ser "como diabos o Brasil degringolou desse jeito e agora meu Deus será que um dia a gente sai do atoleiro?" (...), e por aí vai.
Leiam o resto no jornal ou no online, vale a pena.
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Tinha acabado de ler a reportagem "Finlândia lidera ranking mundial da Felicidade", de João Perassolo, também na Folha (página A20), que mostra a importância dos amigos para o bem viver.
Uma coisa foi puxando a outra e resultou no título desta minha cronica de domingo.
Por coincidência, sexta e sábado reencontrei velhos bons amigos, que não via há tempos.
Como pouco tenho saído de casa, com dificuldades de andar cada vez maiores para vencer um ou dois quarteirões, tenho visto pouca gente além do meu bar da esquina, bem aqui ao lado.
Na verdade, tenho visto menos amigos não só por conta das dificuldades de locomoção, mas também por outras razões.
A quantidade de amizades parece seguir nossos ciclos de vida: vai aumentando com o tempo e, a partir de um determinado momento, começa a declinar por causas naturais, entre elas a partida dos que vão embora mais cedo.
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Já perdi boa parte dos meus amigos de ginásio, colegas dos meus primeiros tempos de redação e outros que ficaram pelo caminho nos últimos tempos, em razão de divergências políticas inconciliáveis nestes tempos intolerantes e delirantes do bolsonarismo em marcha.
Amigos que sempre respeitaram as diferenças - sou são-paulino e petista, nesta ordem - passaram a se estranhar comigo, não só ao discutir futebol, mas também porque eu me recusava a mudar de lado ou não assumir lado nenhum, como muitos deles fizeram nas últimas eleições.
Eram relações bem antigas e alguém há de perguntar se a política justifica o rompimento, mas a questão não é só ideológica. Refere-se mais a princípios e valores que me são muito caros.
Não posso me imaginar mudando de time ou de partido, mesmo nos piores momentos.
São formas diferentes de encarar a vida, que se acirram em momentos de crise profunda como esta que estamos vivendo, e da qual fala Antonio Prata em sua coluna.
Mas prefiro falar dos cada vez menos amigos que ficaram e com quem conversei neste fim de semana.
São pessoas que muitos de vocês devem conhecer _, um maestro, um político, artistas e jornalistas _ mas vou preservar seus nomes porque podem não concordar com o que estou escrevendo.
O resultado do Relatório Mundial de Felicidade, divulgado no último dia 20, que aponta a liderança da Finlândia e deixa o Brasil em 32º lugar, pode ser explicado por vários motivos, além da renda per capita e da vida saudável.
A boa convivência com amigos e os parentes próximos é o principal deles, segundo um dos editores do relatório, John Heliwell, de 80 anos.
"Os finlandeses são especiais em coisas mais profundas e duradouras, felizes com suas vidas como um todo. Não se orgulham, não falam de si mesmos e não ostentam".
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É exatamente o contrário do que vemos por aqui, onde abundam os tipos autobiográficos, aqueles que ostentam suas conquistas amorosas, profissionais e financeiras, e não costumam ouvir o que os outros falam.
São donos de sapiências variadas e verdades absolutas, que agora podem ser contestadas com uma simples consulta ao doutor Google.
Curioso é que pessoas vitoriosas e admiradas em suas atividades são as mais simples. Gostam mais de contar causos com histórias dos outros, brincar com seus próprios defeitos e falar da vida com leveza, sem a eterna competição do ganhar e perder.
"Eu não quero ter razão, só quero ser feliz", ouvi certa vez de não sei quem, e guardei como um belo ensinamento.
Claro que é cada vez mais desafiador ser feliz com tantas desgraças, tragédias e misérias à nossa volta, e a gente tem que fazer uma força danada para sair do atoleiro em que nos metemos.
Responder à pergunta do cronista da Folha não é fácil. Ele elenca mil fatos aleatórios e imprevisíveis que, se não tivessem acontecido, poderiam, cada um deles, ter mudado toda a história.
Dá para comparar com desastres ferroviários em que quase nunca um só fator é determinante, mas um conjunto que se soma para provocar o acidente.
Assim é também nas relações humanas, em que se gasta mais tempo procurando os culpados do que as causas, para evitar que se repitam.
Com o tempo vivido, acabamos ficando mais exigentes, menos pacientes, priorizamos a qualidade à quantidade em tudo o que fazemos.
No caso dos finlandeses, por exemplo, tem um detalhe importante para explicar seu bem-estar longevo, como disse o pesquisador John Helliwell: eles vivem num dos países mais frios do mundo, o que os leva a ficar mais tempo em casa com a família ou numa taberna com os amigos.
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Vivem mais para dentro do que para fora, ao contrário de nós, brasileiros, principalmente os do Rio para cima, onde o calor empurra as pessoas para a rua e torna as relações mais fluidas na busca do prazer, pulando de bar em bar, de festa em festa.
Neste já ocaso da vida, tive a sorte de morar ao lado de uma taberna antiga, a Tabacaria Ranieri, do amigo Beto, e ser aceito naquela confraria onde as amizades são preservadas por longo tempo.
Lá posso fumar, beber e jogar conversa fora, sem ter nem que atravessar a rua.
A maioria desses amigos é bem conservadora, diverge das minhas posições políticas e do que mais penso, mas todos lá me respeitam.
Tem de tudo: advogados, artistas, grandes e pequenos empresários, operadores financeiros, fazendeiros, executivos, e quase todos fumam charuto, enquanto eu continuo fiel ao meu velho cigarrinho.
Faz muito tempo já que não dirijo mais, o que também limita minhas andanças, mas não sinto falta disso.
Já viajei pelo Brasil todo e por meio mundo a trabalho como jornalista, e menos a passeio. Conheço mais gente e lugares do que jamais sonhara.
Quero agora só um pouco de paz e ganhar o necessário para pagar as contas, o que se torna cada vez mais difícil no nosso país.
A situação dos velhos amigos que encontrei no jantar de sexta e no almoço de sábado não é muito diferente da minha, mas não ficamos só falando dos achaques da saúde, médicos e remédios.
Até conseguimos dar algumas boas risadas, e é isso que importa.
Pensando bem, já estou quase virando um finlandês...
E vida boa que segue.
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