A equação Bolsonaro

"Os eleitores com até 34 anos representam 37% do eleitorado. Quase 40% dos eleitores só sabe o que é ser governado pela esquerda. Lula e Dilma são o 'piso'.  Os jovens estão atrás do teto, que lhes é vendido todos os dias pela grande mídia como um oásis fascinante. Buscam o futuro e não o passado. Não espanta que Bolsonaro tenha na juventude seu melhor desempenho", diz o colunista Ricardo Cappelli; "Vivemos uma brutal crise de representatividade. O desespero entope os ouvidos"

Brasília - Conselho de Ética rejeita processo contra o deputado Jair Bolsonaro por citar Brilhante Ustra (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Brasília - Conselho de Ética rejeita processo contra o deputado Jair Bolsonaro por citar Brilhante Ustra (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil) (Foto: Ricardo Cappelli)


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Na suposta falência do estado, armar todas as pessoas pode ser uma "boa" solução para a violência. Na desordem, uma mão forte com saídas fáceis (e equivocadas) parece ser ótima.

A democracia, ou o receio do arbítrio, é um valor distante e relativo. Se eu só conheço a esquerda, talvez o "diferente" seja melhor.

A análise de alguns dados do TSE nos dá algumas pistas do que está acontecendo no Brasil.

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Tomemos um jovem de 16 anos como parâmetro. Com esta idade em 1974 já era possível compreender minimamente as consequências sociais e políticas da ditadura.

Em 2018 este adolescente da década de 70 está com 60 anos. A campanha das Diretas é de 1983/84. Quem tinha 16 anos hoje é um cinquentão.

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Segundo o TSE, temos 42% do eleitorado com mais de 45 anos (seria mais preciso se tivéssemos dados apenas dos eleitores com mais de 50 anos). Esta é a parcela que vivenciou a ditadura e/ou a campanha pelas diretas.

Pelo menos 60% do eleitorado não possui memória afetiva que os ligue à luta democrática. O arbítrio é um fantasma muito distante.

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Lula chegou ao poder em 2003. Quem tinha 16 anos quando Luiz Inácio subiu a rampa tem hoje 31 anos.

Os eleitores com até 34 anos representam 37% do eleitorado. Quase 40% dos eleitores só sabe o que é ser governado pela esquerda. Lula e Dilma são o "piso".

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Os jovens estão atrás do teto, que lhes é vendido todos os dias pela grande mídia como um oásis fascinante. Buscam o futuro e não o passado.

Não espanta que Bolsonaro tenha na juventude seu melhor desempenho. Segundo o último Datafolha, 23% dos eleitores entre 16 e 24 anos escolhem o Capitão.

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A internet e as mídias sociais inauguraram uma nova temporalidade. O relógio não é mais o mesmo. Vivemos na sociedade líquida dos estímulos permanentes em direção ao próximo segundo. A ansiedade é a principal chaga do século XXI. Olhar para trás é "proibido".

Estímulos sucessivos esmagam nossa capacidade de reflexão.

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Ratos adotam padrões a partir de choque elétricos. O impeachment e a Lava Jato inauguraram um processo de choques sucessivos. Temos uma sociedade assustada, com o desemprego e a violência batendo à porta.

Vivemos uma brutal crise de representatividade. O desespero entope os ouvidos.

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Se o coletivo faliu, menos Estado, menos impostos e cada um por si. O mercado "equalizará as oportunidades e garantirá um lugar ao sol" para quem é honesto e trabalhador.

Se a esquerda foi o padrão recente, a contestação, o "rebelde" é ser de direita. Se os políticos são todos corruptos, que tal um "não político" forte para resolver?

E se o escolhido for a novidade, bater na Globo e rejeitar o "padrão marqueteiro", uma espécie de anti-establishment?

A centro direita continua sem candidato. A medida que o ventos sopram e os caminhões empurram, a possibilidade da extrema direita galvanizar o mercado e polarizar parcelas do centro aumenta.

A esquerda brasileira deveria refletir e se unir enquanto ainda há tempo. Um desastre civilizacional pode estar a caminho.

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