A cidade é um "black friday"

Sua cidade, minha cidade é um mosaico partido; traduzido e convertido em notas, títulos, apólices, escrituras e ações. A "sua" cidade feita e desfeita cotidianamente em bites está integralmente alojada nos computadores das agências do rentismo; sua cidade, meu caro, migra como se fosse uma revoada de pássaros, em partes ou em sua totalidade nas info-vias de fibras óticas.

São Paulo- SP, 20/05/2014- Trânsito lento nos dois sentidos da avenida 23 de maio. A prefeitura suspendeu o rodízio de veículos no período da tarde de hoje (20/05), por conta da greve dos motoristas e cobradores que começou hoje.
São Paulo- SP, 20/05/2014- Trânsito lento nos dois sentidos da avenida 23 de maio. A prefeitura suspendeu o rodízio de veículos no período da tarde de hoje (20/05), por conta da greve dos motoristas e cobradores que começou hoje. (Foto: Ângelo Cavalcante)


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Isso mesmo! A cidade é um "black friday"; aliás, é o maior "black friday" do mundo. Dura as vinte quatro horas do dia; sete dias na semana; trinta dias no mês e 365 dias no ano. É mercadoria e ponto final. Aliás, a cidade e todos os seus conteúdos. A cidade é fluída, líquida, escorregadia e que migra de forma intermitente de mão em mão; de agência em agência; de incorporadora em incorporadora. É um capital volátil. Simples assim!

Que inocência a nossa! Olhamos ao derredor, miramos no horizonte, buscamos paisagens. Vemos casas, prédios, ruas, transeuntes no seu vai-e-vem sem-fim e de forma pueril nos dizemos: "essa é a minha cidade".

Sua cidade, minha cidade é um mosaico partido; traduzido e convertido em notas, títulos, apólices, escrituras e ações. A "sua" cidade feita e desfeita cotidianamente em bites está integralmente alojada nos computadores das agências do rentismo; sua cidade, meu caro, migra como se fosse uma revoada de pássaros, em partes ou em sua totalidade nas info-vias de fibras óticas.

Te digo mais: sua cidade é uma cédula; isso mesmo, é como um dinheiro de "um real", "cinco reais" ou "dez reais" e que é trocada a todo instante e, por sinal, também recebida como troco; que é posta na mesa de burocratas e ladrões outros. Sua cidade... Sua cidade só existe no romantismo da sua cabeça!

A cidade fora esquadrinhada e não há pedaço de chão sem código, referência e cotação. Devidamente disposta em bem milimetrado arranjo de coordenadas cartesianas a cidade é negócio. Integralmente apropriada, não por cidadãos do trabalho, por pessoas que, de fato carecem de morar para viver, mas por escritórios advocatícios, corretoras, imobiliárias, financeiras e agências bancárias.

Favela, bairro, área de risco, área de proteção ambiental ou reserva de nascentes d'água não existem no planilhamento binário dessa tecnocracia. Essas categorias pertencem ao mundo social, aos movimentos sociais e as governanças outrora, públicas. O que toma conta do neo-governo despótico, autoritário, tirânico e monossilábico das finanças imobiliárias respeita, simplesmente, ao sagrado do custo/benefício desta ou daquela área.

É área de risco? Tem alagadiços? Barrancos? Possibilidades de desmoronamentos? Isso não tem a menor importância; ao fim, a cidade demanda projetos; grandes torres, túneis, passagens, auto-estradas, ferrovias, trilhos e isso e aquilo. Tudo entra, é parte e componente das dinâmicas da especulação a ser realizada no curto, médio ou longo prazo. Tudo se encaixa na hora e no momento certo. Não há perda e tudo são possibilidades.

Se firma como categoria definidora desse novo "ethos administrativo" não-eleito, não-público e não-social o categórico supremo do "risco" e de seus desdobramentos. Por fim, algoritmos são desenvolvidos para o cálculo desse mesmo risco, de suas possibilidades, eventualidades e contingências ao estilo de tragédias ambientais ou ainda, levantes populares. E se nada der certo... Eles tem a polícia para pôr tudo no seu devido lugar!

Toda a sua cidade cabe em um 'pen drive' de 16G e; pode ser integralmente alterada com as senhas dos patrões do rentismo e um miúdo "enter". Sintetizando: se um desses patrões transferir seu saldo de uma conta bancária para outra; se ele decidir transferir seus negócios para a cidade vizinha... A sua cidade treme de ponta a ponta! Reconheçamos... A cidade como negócio é depressivo e lastimável "black friday".

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