PDT gaúcho mostra rachaduras

Ânimos se acirraram durante reunião do partido para definir a delegação gaúcha que irá para a Convenção Nacional em Brasília, na próxima semana; ala ligada ao atual presidente do PDT Carlos Lupi e ao deputado federal e presidente do PDT de Porto Alegre, Vieira da Cunha, venceu por 117 votos a 84; encontro foi um dos mais tensos da história da sigla

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Por Rachel Duarte, do portal Sul 21

O futuro do PDT nacional será definido no dia 22 de março, na Convenção Nacional do partido, em Brasília. No Rio Grande do Sul, os ânimos se acirraram nesta segunda-feira (11), na reunião que definiu a delegação gaúcha que irá para o encontro da próxima semana. A ala ligada ao atual presidente do PDT Carlos Lupi e ao deputado federal Vieira da Cunha venceu por 117 votos a 84. Os 11 delegados foram eleitos em votação aberta, em reunião fechada à imprensa. Uma escolha que expôs divergências internas e deu sinais de que a disputa vai além de eventuais rusgas pessoais. "Há interesses por trás desta disputa. Interesses focados em 2014, com o processo eleitoral do país e dos governos estaduais. Nós entendemos que aqui temos que ter candidatura própria e na candidatura presidencial também. Outros defendem o apoio ao PT. Isto é público", afirmou Vieira da Cunha.

Apesar de a reunião ter sido fechada, jornalistas que aguardavam do lado de fora ouviram gritos mais exaltados e consideraram a reunião como uma das mais tensas da história do partido. Uma das lideranças determinadas a diluir as tensões internas foi o ex-governador Alceu Collares, em nome "da ideologia trabalhista, que não pode ser colocada atrás dos interesses pessoais". Segundo ele, houve muita tensão e o principal responsável foi o deputado e presidente do PDT de Porto Alegre, Vieira da Cunha. "O Vieira conduziu as coisas assim. Ele está muito magoado depois daquela carta", disse Collares.

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A carta referida é um documento divulgado pelo parlamentar após o Sul21 ter publicado entrevista com o ex-deputado estadual e fundador do PDT no Rio Grande do Sul, Carlos Araújo. Na entrevista, Araújo afirmou que "o PDT está afastado do trabalhismo" e fez uma análise da situação do partido no país. Ele também anunciou a intenção de se filiar novamente ao partido, o que acabou ocorrendo poucos dias depois.

A decisão de Carlos Araújo foi tomada em apoio aos netos de Leonel Brizola, que querem disputar o comando nacional do partido no final de março, quando ocorrerá eleição para a executiva e para o diretório. O grupo liderado pela deputada estadual gaúcha Juliana Brizola, pelo deputado federal licenciado e ministro do Trabalho Brizola Neto e pelo vereador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola — todos irmãos — faz fortes críticas à ala liderada por Carlos Lupi, ex-ministro do Trabalho e presidente nacional do PDT desde a morte de Leonel Brizola, em 2004.

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"A questão pessoal está sendo tratada na justiça criminal", diz Vieira da Cunha

A reação de Vieira da Cunha contrária a filiação de Carlos Araújo está sendo resolvida, segundo ele, no âmbito criminal. "A questão pessoal está sendo tratada no foro próprio, que é justiça criminal. O que me refiro (sobre as tensões na reunião desta segunda) são as questões políticas. Existe uma convenção nacional agendada para o dia 22 que erguerá o diretório nacional. É normal que haja disputa na escolha dos delegados", afirmou.

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Os 11 delegados eleitos foram Romildo Bolzan Jr, Pompeo de Mattos, Airton Dipp, Lícia Peres, Salete Hoszkwski, Sônia D'Ávila, Ciro Simoni, Thiago Duarte, Rossano Gonçalves, Christhofer Goulart e Edson Néspolo. Ambos votam na chapa de situação, que tem boa representação na Executiva Nacional. A votação ocorreu de forma aberta, o que gerou contrariedade dos que defendiam voto secreto.

"Acreditamos que, como parte expressiva da cúpula do partido estava na outra chapa, a pressão seria maior se fosse aberto. Na nossa tínhamos um deputado federal, na outra dois. Tínhamos um secretário de estado, na outra dois. Os vereadores de Porto Alegre estavam na chapa adversária", falou o secretário do Gabinete do RS, Afonso Mota, um dos líderes do grupo de Juliana Brizola.

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O peso político sobre os votos de forma aberta foi fundamental, avalia Alceu Collares. "Foram ao menos 25 votos de empregados com Cargos em Comissão. Eles não poderiam votar de outra forma. A imprensa também não pode entrar. O Pompeo de Matos disse para não deixarem entrar. Eu gritei que deixassem, mas não adiantou. Foi vitória da direita", acusou, citando uma eventual tendência ideológica da ala vitoriosa.

O deputado Vieira da Cunha defendeu que a tradição do partido é que impôs a forma de votação. "É um menosprezo aos membros do diretório dizer isso (que a votação foi induzida). Defendemos a votação aberta porque é tradição do PDT/RS votarmos nominal e abertamente. Só defende o voto secreto quem tem vergonha das suas posições. Foi tão frágil o argumento dos que queriam voto secreto que eles mesmos retiraram as propostas", defende.

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Presente ao encontro, o prefeito José Fortunati falou por 10 minutos. Segundo dirigentes presentes, a fala foi no sentido de reforçar o histórico do partido e o legado brizolista. Fortunati também citou os bons resultados do partido nas eleições de 2012 como forma de se afirmar um líder no PDT e alcançar o equilíbrio dos grupos em disputa. "Ele tem mais de 10 anos de filiação no partido e se consolidou como principal liderança no Brasil. A fala dele contribui para que a reunião fosse realizada em alto nível. Foi um debate duro, mas respeitoso", afirma Vieira da Cunha.

De conciliador a candidato a presidente do PDT

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Determinado a buscar a conciliação entre as alas para evitar um racha na Convenção Nacional, Alceu Collares disse que a vitória não foi dos votos que elegeram os delegados, mas sim do grupo que quer preservar os ideais da legenda. "Se teve alguma derrota ontem foi deles (grupo majoritário). Os 84 ganharam dos 117. Nós ganhamos porque saímos de lá com a coerência do trabalhismo. Não podemos ficar igual o (ex-prefeito de São Paulo e fundador do PSD, Gilberto) Kassab, que não é de esquerda e direita. Nós surgimos na esquerda, na luta contra o neoliberalismo", falou.

Collares diz que ainda há tempo para uma conciliação até o dia 22. "Eu continuo com a bandeira da conciliação. Este assunto do Vieira e o desentendimento com a deputada Brizola são coisas já superadas. Temos tempo pra trocar ideias e buscar um ideal comum", afirmou.

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Antes da reunião, Alceu Collares foi lançado pelo deputado federal Giovani Cherini na rede social como candidato à presidência nacional da sigla. "Eu sentei lá pela conciliação e sai candidato", disse, confirmando que o nome foi referendado no encontro. "Vamos fazer a renovação do trabalhismo com um velho de 85 anos. Eles estão no século 21, mas têm ideias do século 19. E farei com esta delicadeza que é minha característica", ironizou.

Para Afonso Mota, lançar qualquer nome agora pode ser precipitado. "A disputa pelo diretório nacional é outra. Eu tenho voto porque sou da Executiva, mas não sabemos se vão aceitar o nome de Alceu Collares", reservou-se a dizer.

A certeza da noite desta segunda foi que o processo democrático foi respeitado e o debate acirrado, sinal de vida partidária. "Uma reunião onde se processou um debate. As partes colocaram suas visões. Teve claque, manifestações, mas nada sem extrapolar limites", falou.

A unidade é o melhor caminho para que o PDT gaúcho alce vôos mais altos na Convenção Nacional. Porém, para que ela ocorra na prática, algumas mágoas ainda precisam ser superadas. "Precisa haver, da parte de quem ofendeu a honra de companheiros, uma mudança de postura. O clima de unidade exige uma retratação de quem ofendeu a honra de companheiros. É público que houve radicalização e ofensas que tem que ser retiradas. A unidade é um objetivo perseguido por todos. É preciso criar um ambiente para que ela ocorra verdadeiramente. A unidade não pode ser só discurso", afirma Vieira da Cunha.

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