Atendimento público para dependentes de álcool cresce 37% em três anos

Em dezembro do ano passado, foram atendidos 1,5 mil pessoas nas 25 unidades do Centro de Apoio Psicossocial Álcool e Drogas existentes na capital paulista; desse total, 18,5% são mulheres; sete em cada dez pessoas atendidas têm idade entre 40 e 59 anos

Atendimento público para dependentes de álcool cresce 37% em três anos
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Camila Maciel
Repórter da Agência Brasil

São Paulo - "Vim de uma situação em que passava praticamente 24 horas do dia alcoolizado. Acordava, a garrafa estava do lado. Ia dormir, a garrafa também estava lá". Durante quase dez anos, esse foi o cotidiano do auxiliar mecânico de aeronave Pedro Carlos de Vieira, 40 anos. "Agora, vejo a vida de outro jeito. Vejo o quanto perdi. Passei todo esse tempo sem fazer planos". Assim como Pedro, 1.970 pessoas, na média mensal, foram às unidades do Centro de Apoio Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) do município de São Paulo para buscar tratamento para a dependência do álcool no ano passado.

Em três anos, o total de atendimentos cresceu cerca de 37%. Foram 1.238 em 2010 e 1.542 em 2011. Segundo o psicólogo Vilmar Ezequiel dos Santos, gerente do Caps AD de Santana, a crescente procura pode estar relacionada à tendência de uma busca pelo tratamento cada vez mais precoce. "Pela nossa experiência na área, percebemos que havia a busca depois de muitos anos de consumo, até 20 ou 30 anos. Agora, a gente está observando que esse tempo de se reconhecer doente tem diminuído".

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Em dezembro do ano passado, foram atendidos 1.596 dependentes de álcool nas 25 unidades do Caps existentes na capital paulista. Desse total, 18,5% são mulheres. Na divisão por faixa etária, sete em cada dez pessoas atendidas têm idade entre 40 e 59 anos.

Santos acredita que essa tendência de mudança tem relação com o amadurecimento da sociedade para a abordagem da questão. "Hoje, as pessoas estão mais preocupadas. Há a questão do trânsito. A Lei Seca chamou a atenção para isso, que não se pode beber e dirigir. Essa percepção vai produzir impacto na população de incentivo à procura de atendimento. A família, que antes não queria saber [do dependente], que deixava de canto, está mais atenta, preocupada".

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Foi a família de Pedro que identificou um quadro preocupante e tomou uma atitude. "Se não fosse minha irmã, ainda estaria do mesmo jeito e não sei por quanto tempo mais. Eu não era violento, nem prejudicava ninguém, mas minha mãe estava muito triste com a situação", relatou. Ele, que é do Recife (PE), foi trazido a São Paulo em setembro do ano passado com o desafio de construir um novo projeto de vida. "Consegui um emprego de porteiro, por enquanto. Já é alguma coisa. Mas quero um emprego na minha área [de aviação]".

O gerente do Caps AD explica que, mais do que tomar remédio ou fazer terapia, o tratamento deve fornecer uma perspectiva de vida ao paciente. Segundo ele, é preciso ajudar a pessoa a retomar o sentido da vida, ou seja, olhar para a frente e ver uma situação diferente dessa que ela vive antes do tratamento. “Não basta parar de usar", explica.

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Santos diz que, em média, o tratamento para dependentes de álcool dura entre dois e três anos. "Não dá para ser a curto prazo. Mas varia muito [de acordo com a] pessoa, a problemática e o comprometimento. Há casos em que o comprometimento já é tamanho que a pessoa vai ficar se tratando para sempre".

Na comparação com outras drogas, ele diz que não é possível determinar se a dependência do álcool é mais fácil de ser tratada. "Vai depender de cada caso, Às vezes, o álcool é mais difícil, sim. É uma coisa mais arraigada, faz parte da vida da pessoa. O álcool é mais aceito socialmente. A sociedade é mais complacente, ele é mais conhecido em termos de uso. Identificar que isso é um problema é uma questão mais difícil".

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