Entidades ligadas aos direitos humanos emitem nota contra acordo da Volkswagen

Entidades de direitos humanos emitiram nota de protesto contra os termos do acordo com o MPF em São Paulo e divulgado ontem pela empresa Volkswagen, que visa a reparar sua conduta durante a ditadura no Brasil

(Foto: Evandro Teixeira | Reuters)


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Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

Entidades ligadas aos direitos humanos emitiram nota de protesto contra os termos do acordo com o Ministério Público Federal em São Paulo e divulgado ontem pela empresa Volkswagen, que visa a reparar sua conduta durante a ditadura no Brasil. Com isso, três inquéritos civis que tramitavam desde 2015 para investigar a conivência da Volks com o regime dos ditadores, serão encerrados. O prazo para o cumprimento do que ficou estabelecido será em janeiro de 2021.

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No Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), a montadora se compromete a doar R$ 36 milhões para iniciativas ligadas à defesa de direitos humanos, investigação de crimes da época e à memória histórica. Em comunicado à imprensa, a montadora alemã disse que: “Com este acordo, a Volkswagen quer promover o esclarecimento da verdade sobre as violações dos direitos humanos naquela época”. Afirmou também ser “a primeira empresa estrangeira a enfrentar seu passado de forma transparente” durante a ditadura.

A nota que discorda dos termos do acordo é assinada por Adriana Gomes Santos, coautora da representação que denunciou a Cia. Docas de Santos por cooperação com a ditadura; Adriano Diogo, ex-deputado(PT) e ex-presidente da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo – Rubens Paiva (2012-2015); Antonio Fernandes Neto, coautor da representação que denunciou a Cia. Docas de Santos por cooperação com a ditadura; José Luiz Del Roio, ex-Senador da República Italiana e diretor do Instituto Astrojildo Pereira; Rosa Cardoso, comissionária da Comissão Nacional da Verdade (2012-2014) e coordenadora do Grupo de Trabalho Ditadura e repressão aos trabalhadores e ao movimento sindical (GT-13); Sebastião Neto, secretário-executivo do Grupo de Trabalho ditadura e repressão aos trabalhadores e ao movimento sindical (GT-13) da Comissão Nacional da Verdade (2013-2014) e coordenador do IIEP.

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Os signatários alegam que a empresa se antecipou a um acordo que vinha sendo costurado desde o ano de 2015, quando o Fórum de trabalhadores por verdade, justiça e reparação, apresentou denúncia ao Ministério Público Federal, apoiado por todas as 10 Centrais Sindicais brasileiras e personalidades de Direitos Humanos em setembro daquele ano. O trabalho de pesquisa e sistematização da legislação internacional sobre o tema foi realizado pelo IIEP (Intercâmbio, Informações, Estudos e Pesquisas). E protestam, ainda, contra o uso dos recursos que seriam destinados ao memorial aos trabalhadores atingidos pela ditadura.

Leia a nota na íntegra:

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NOTA DE ESCLARECIMENTO: ACORDO DO MINISTÉRIO PÚBLICO COM VOLKSWAGEN É FECHADO SEM REPARAÇÃO DA EMPRESA POR SUA CUMPLICIDADE COM A DITADURA

Antecedentes

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A Volkswagen é a primeira empresa a fechar um acordo institucional por cumplicidade com graves violações de direitos humanos perpetradas na ditadura brasileira, graças à pressão enorme de muita gente e o trabalho contínuo de anos, além do acolhimento do Ministério Público, na sua função institucional.

O Caso Volkswagen tem origem nas audiências da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo – Rubens Paiva, presidida pelo Deputado Adriano Diogo, realizadas em conjunto com o GT 13- Ditadura e repressão aos trabalhadores e ao movimento sindical, coordenado pela então presidenta da Comissão Nacional da Verdade (CNV), Dra. Rosa Cardoso da Cunha. O GT 13 apresentou 43 recomendações à CNV, visando à busca por reparações coletivas pelas violações de direitos humanos cometidas contra a classe trabalhadora. Em 2015, o Fórum de trabalhadores por verdade, justiça e reparação, apresentou denúncia ao Ministério Público Federal, apoiado por todas as 10 Centrais Sindicais brasileiras e personalidades de Direitos Humanos em setembro de 2015. O trabalho de pesquisa e sistematização da legislação internacional sobre o tema foi realizado pelo IIEP (Intercâmbio, Informações, Estudos e Pesquisas).

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Recursos para memorial dos trabalhadores serão destinados a outros fins

O acordo firmado está aquém do que foi negociado nos últimos cinco anos e corre o risco de rebaixar o parâmetro das reparações que serão exigidas em novas iniciativas de responsabilização de empresas que cometeram graves violações de direitos humanos na ditadura.

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Em abril deste ano, foi apresentada aos autores da representação que resultou na abertura do inquérito um acordo semelhante ao divulgado hoje à tarde pela imprensa alemã e repercutido acriticamente no Brasil. Já naquele momento, a recusa foi unânime.

A empresa negou recursos para o projeto de Lugar de Memória das Lutas dos Trabalhadores, em local público de ao menos 500 metros quadrados, já em negociação avançada com a Prefeitura de São Paulo. Além disso, como confirmado por nota publicada hoje pelo Ministério Público Federal hoje (23/09), após as 18h, o acordo final prevê o repasse de R$9 milhões ao Fundo de Defesa Direitos Difusos (FDD) do Estado de São Paulo e ao FDD Federal, que pertence ao Ministério da Justiça. Os termos eram inaceitáveis para as organizações envolvidas no processo e contrariavam toda a negociação ao longo destes cinco anos.

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Também serão repassados 6 milhões para o Memorial da Luta pela Justiça, encampado pela OAB-SP, que tem com escopo central a atuação dos advogados de presos e perseguidos políticos na Justiça Militar. O valor é “suficiente para a conclusão de sua implantação na sede da antiga auditoria militar em São Paulo” (nota publicada no site do MPF). Ou seja, os recursos são para a conclusão do Memorial, não para a memória das lutas dos trabalhadores, que terá apenas um pequeno espaço, de aproximadamente 50 m², inviabilizando, evidentemente, qualquer concepção acumulada entre os lutadores por verdade, memória, justiça e reparação, a exemplo de iniciativas em outros países onde houve de fato passos dados em torno da justiça de transição.

Muito embora os autores da representação tenham manifestado formalmente o desacordo com a proposta, durante as últimas quatro semanas, não houve qualquer comunicação por parte do Ministério Público. Apenas nesta última segunda feira, dia 21, foi enviado despacho comunicando que seria assinado o acordo porque era uma prerrogativa do Ministério Público definir os termos do TAC, citando a legislação pertinente. 

Aqueles que acompanharam o Inquérito, apresentaram a documentação, reuniram testemunhas e lutaram pelo desenvolvimento do caso não foram ouvidos. Além de tudo, foi imposto um sigilo sobre as cláusulas do acordo. Sequer foram informados da data em que o TAC seria firmado. Surpreendentemente, a imprensa alemã noticiou a assinatura do acordo com os valores e cláusulas combinadas.

Somos favoráveis aos repasses de recursos para trabalhos de Direitos Humanos, como a Vala de Perus, e um fundo para investigar outras empresas cúmplices do regime ditatorial, de acordo com o que sempre propusemos, desde o início. Mas a principal proposta dos signatários – um Espaço de Memória dos Trabalhadores – foi absolutamente diluído.

Também foi divulgado que serão repassados 16,5 milhões para a Associação de Vitimados pela Volkswagen – Heinrich Plagge. A demanda desses trabalhadores vitimados foi aceita em março de 2018 como uma das cláusulas de negociação, o que consideramos justo. Contudo, esse dinheiro será transferido em caráter de “doação” pela empresa, como uma benevolência da Volkswagen.

Outra questão é a obrigação de retratação e pedido de desculpas da empresa à sociedade. A empresa quer fazer uma retratação rasa e distorcida, em que trabalhará a cumplicidade com a ditadura como um desvio de conduta de alguns funcionários, e não uma cooperação sistemática e orgânica com a repressão durante mais de três décadas.

O que incomoda a Volkswagen é a imagem e o marketing. As doações feitas serão tratadas pela empresa como uma benevolência e não como uma reparação por sua cumplicidade com a ditadura. Nesse sentido, ela sairá limpa dessa história.

Nesses 5 anos o Ministério Público falava com a Volks e consultava eventualmente os signatários da representação. A empresa fez todas manobras e protelações possíveis. Importante frisar que não é o único caso de impunidade da Volkswagen na sua história brasileira, tendo em vista, por exemplo, o caso de trabalho escravo na Fazenda Rio Cristalino e os incêndios nas florestas do Pará. Não por acaso, Andreas Renschler, membro da diretoria da Volkswagen AG, saudou entusiasmado a eleição de Bolsonaro, ainda em dezembro de 2018. Seguiu a tradição da corporação: em 1971, Werner Shmidt, então presidente da empresa no Brasil, declarou à imprensa alemã que “a polícia e os militares torturam prisioneiros. Dissidentes políticos (…) são assassinados. Mas uma análise objetiva deveria sempre ter em conta que as coisas simplesmente não avançam sem firmeza. E as coisas estão avançando”.

A Lei da Anistia protege os torturadores e sua reinterpretação dorme há 8 anos nas gavetas do Ministro Fux. Os generais da ditadura e torturadores seguem impunes. As empresas e empresários cúmplices da ditadura têm sono tranquilo. Dormem mal os perseguidos e presos políticos e suas famílias.

Adriana Gomes Santos

Coautora da representação que denunciou a Cia. Docas de Santos por cooperação com a ditadura

Adriano Diogo

Presidente da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo – Rubens Paiva (2012-2015)

 Antonio Fernandes Neto

Coautor da representação que denunciou a Cia. Docas de Santos por cooperação com a ditadura

 José Luiz Del Roio

Ex-Senador da República Italiana e diretor do Instituto Astrojildo Pereira

 Rosa Cardoso

Comissionária da Comissão Nacional da Verdade (2012-2014) e coordenadora do Grupo de Trabalho Ditadura e repressão aos trabalhadores e ao movimento sindical (GT-13)

 Sebastião Neto

Secretário-executivo do Grupo de Trabalho Ditadura e repressão aos trabalhadores e ao movimento sindical (GT-13) da Comissão Nacional da Verdade (2013-2014) e coordenador do IIEP

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