Avenida Brasil: Prisão na via expressa expõe o colapso da segurança pública no Rio
Episódio de carro roubado na Penha é sintoma de um modelo de policiamento falido e da desigualdade social que transforma a principal artéria da cidade em palco de medo
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247 – A prisão de quatro criminosos em um carro roubado na Avenida Brasil, na altura da Penha, Zona Norte do Rio, na última sexta-feira (16), é mais do que um simples registro policial. O episódio, que culminou em uma perseguição e colisão, expõe a fratura exposta da segurança pública em uma das vias mais importantes e simbólicas do país. Segundo informações do portal Agenda do Poder, agentes do Batalhão de Policiamento em Vias Expressas (BPVE) interceptaram o grupo, que utilizava uma pistola falsa para cometer assaltos. O caso, longe de ser isolado, serve como um microcosmo dos desafios estruturais que transformam o trajeto diário de milhões de trabalhadores em uma roleta-russa, evidenciando a falência de um modelo de segurança pública focado na reação e não na prevenção das causas profundas da violência.
Avenida Brasil: Uma artéria vital sob o cerco da violência
Com seus 58 quilômetros, a Avenida Brasil não é apenas uma via expressa; é a espinha dorsal da mobilidade urbana do Rio de Janeiro, conectando a Zona Oeste e a Baixada Fluminense ao centro da cidade. Diariamente, mais de um milhão de pessoas e centenas de milhares de veículos transitam por ela, tornando-a um espelho das contradições sociais e econômicas da metrópole. É a rota do trabalhador, do estudante, do transporte de cargas e de serviços essenciais. No entanto, essa importância estratégica convive com uma realidade de medo e insegurança crônicos, onde o Estado se mostra incapaz de garantir o direito fundamental de ir e vir.
O incidente reportado pelo Agenda do Poder ilustra perfeitamente essa dinâmica. A ação dos policiais do BPVE começou quando perceberam o que foi descrito como uma "atitude suspeita" por parte dos ocupantes do veículo. A subsequente ordem de parada desencadeou uma tentativa de fuga que resultou na colisão com outro carro, ferindo um dos suspeitos e colocando em risco a vida de outros motoristas. A apreensão de uma pistola falsa e a recuperação do automóvel, que havia sido "roubado em Cordovil", fecham o ciclo de uma ocorrência que se tornou banal no noticiário, mas que revela a audácia dos grupos criminosos e a vulnerabilidade de quem precisa cruzar a cidade.
Para o cidadão comum, dirigir na Avenida Brasil transformou-se em um exercício de tensão constante. Arrastões em engarrafamentos, roubos de carga, assaltos a ônibus e o perigo onipresente de balas perdidas são elementos que compõem a paisagem. A via, que deveria ser um símbolo de progresso e integração, tornou-se uma fronteira de medo, um território onde a ausência do Estado de bem-estar social é preenchida pela brutalidade do crime e pela resposta, muitas vezes igualmente violenta, do aparato repressivo.
A lógica da guerra: Policiamento reativo e o ciclo vicioso do confronto
A existência de um batalhão especializado como o BPVE, dedicado exclusivamente ao patrulhamento de vias expressas, é em si um atestado da falência do modelo de segurança pública. Trata-se de uma medida reativa, que busca conter a sangria sem, contudo, tratar a ferida. A prisão na Penha pode ser contabilizada como uma estatística positiva – um carro recuperado, uma quadrilha desarticulada –, mas ela não altera a estrutura que permite que dezenas de outros grupos continuem agindo impunemente. É a lógica de “enxugar gelo”: uma ação pontual que produz um alívio momentâneo, mas não resolve o problema crônico.
Essa abordagem está enraizada em uma doutrina de segurança que privilegia o confronto em detrimento da inteligência e da prevenção. A perseguição em alta velocidade, que resultou em um acidente, é um exemplo claro dos riscos colaterais dessa estratégia. Quantas vezes incidentes semelhantes terminam com vítimas inocentes? A política de segurança do Rio de Janeiro, historicamente marcada pela militarização e pela lógica de guerra ao inimigo interno, normaliza a violência como método, tratando os sintomas com mais violência, em um ciclo que se retroalimenta e vitimiza principalmente a população pobre e negra.
O foco no policiamento ostensivo e na repressão ignora as complexas redes criminosas que se beneficiam do roubo de carros e cargas, muitas vezes com conexões que vão muito além dos executores de linha de frente. Enquanto a inteligência policial não for priorizada para desmantelar as engrenagens financeiras e logísticas do crime, ações como a da última sexta-feira continuarão sendo apenas paliativos heroicos, mas insuficientes, de policiais que arriscam suas vidas em um combate sem fim e com regras desiguais.
As raízes do abandono: Desigualdade social como combustível do crime
É impossível analisar a violência na Avenida Brasil sem observar as comunidades que a margeiam. Cordovil, Penha, Complexo do Alemão, Maré – territórios marcados pela ausência histórica de políticas públicas eficazes e pela presença quase exclusiva do braço armado do Estado. Os quatro homens presos não surgiram do vácuo; são, em grande medida, produtos de um sistema que lhes nega sistematicamente oportunidades de educação de qualidade, emprego digno, acesso à cultura e lazer. Para uma juventude sem perspectivas, a economia do crime se apresenta como uma alternativa trágica e, por vezes, a única viável.
A violência que transborda das comunidades para a via expressa é o sintoma febril de um corpo social doente. A desigualdade abissal, aprofundada por décadas de políticas neoliberais que sucatearam serviços públicos e precarizaram o trabalho, cria o caldo de cultura perfeito para a criminalidade. O Estado que falha em prover direitos básicos é o mesmo que investe maciçamente em armamento e viaturas, em uma inversão de prioridades que criminaliza a pobreza em vez de combatê-la. A Avenida Brasil funciona como uma vitrine dessa contradição: por ela, passam a riqueza e a produção do país, enquanto em suas margens se acumulam o abandono e o desespero.
Enquanto a questão da segurança for tratada apenas como “caso de polícia”, sem um debate sério sobre reforma urbana, distribuição de renda e investimento social massivo nas periferias, estaremos condenados a repetir o mesmo roteiro. A repressão pode até remover peças do tabuleiro, mas o jogo continuará o mesmo, com novas peças sendo constantemente repostas pela fábrica de exclusão social.
Rompendo o ciclo: Por uma política de segurança pública cidadã e inclusiva
A superação do caos instalado na Avenida Brasil e em outras vias expressas do país não virá com mais blindados, fuzis ou batalhões especializados. A solução, embora mais complexa e demorada, reside na construção de um novo paradigma de segurança: a segurança cidadã. Este modelo entende que a proteção da vida e do patrimônio está intrinsecamente ligada à garantia de direitos e à promoção da justiça social. Significa trocar a lógica da guerra pela lógica do cuidado e da inclusão.
Isso se traduz em políticas concretas: universalização de escolas de tempo integral nas áreas mais vulneráveis, programas de capacitação profissional e primeiro emprego para jovens, fomento a projetos culturais e esportivos na periferia, e uma política urbana que integre, em vez de segregar. Paralelamente, é imperativa uma reforma profunda nas polícias, com foco na valorização do profissional, no uso da inteligência para desbaratar o crime organizado em seus altos escalões e na construção de uma relação de confiança com a comunidade, desmilitarizando suas práticas e sua mentalidade.
A paz na Avenida Brasil não será conquistada com a asfixia, mas com a oxigenação social de seus arredores. O caminho é longo e exige coragem política para romper com soluções fáceis e populistas que apenas aprofundam a violência. A segurança pública deve deixar de ser um instrumento de controle dos pobres para se tornar um direito de todos, garantido por um Estado que protege, educa e oferece futuro. Somente assim, o trajeto do trabalho para casa deixará de ser uma aposta na sorte para se tornar o que sempre deveria ter sido: um direito básico à cidade.
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