Diretoria do Vasco nega saída de Vegetti, mas expõe fragilidade do modelo SAF
Enquanto Admar Lopes tenta acalmar a torcida sobre o capitão, declarações sobre corte de gastos revelam as contradições do projeto da 777 Partners
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247 – Em um pronunciamento que buscava trazer tranquilidade, mas que acabou por sublinhar as incertezas que rondam o clube, o diretor executivo de futebol do Vasco, Admar Lopes, abordou nesta segunda-feira os rumores sobre uma possível transferência do atacante e capitão do time, Pablo Vegetti. Durante a apresentação do meia Johan Rojas, Lopes foi categórico ao afirmar que o clube não recebeu qualquer proposta pelo centroavante argentino, peça fundamental no esquema tático e ídolo da torcida. A declaração, repercutida pelo portal Metrópoles, veio como uma resposta direta à crescente especulação do mercado, mas foi acompanhada de outras informações que pintam um quadro de austeridade e reestruturação financeira, levantando questionamentos sobre a solidez do projeto da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) comandada pela 777 Partners.
Vegetti Fica? A Versão Oficial e a Incerteza do Mercado
A fala de Admar Lopes foi cirúrgica e visava estancar a sangria de boatos que desestabilizam o ambiente do clube. Diante dos microfones, o diretor foi enfático: "Até o dia de hoje, nenhum clube nos procurou sobre o Vegetti. Em todos os planejamentos, o Pablo estava como capitão e fazendo parte. Contamos com o jogador, tem contrato". A mensagem é clara: oficialmente, Vegetti, cujo contrato se estende até dezembro de 2026, é inegociável e peça central no planejamento do Vasco para as próximas temporadas. Para a torcida vascaína, que vê no "Pirata" não apenas um artilheiro, mas um líder que personifica a raça e a entrega em campo, a declaração soa como música.
No entanto, no universo do futebol moderno, transformado em uma indústria global de entretenimento e ativos financeiros, declarações de dirigentes precisam ser lidas nas entrelinhas. A expressão "até o dia de hoje" é um marcador temporal que, intencionalmente ou não, deixa uma janela aberta para o futuro. O mercado da bola é dinâmico e agressivo, e a palavra de um diretor, por mais firme que seja, pode ser atropelada por uma proposta financeiramente irrecusável. A permanência de um ídolo como Vegetti, de 37 anos, transcende o aspecto técnico; ela representa um pilar de identidade e esperança para uma torcida que sofreu com anos de má gestão e rebaixamentos, e que depositou na SAF a expectativa de um futuro mais estável e vitorioso.
A questão que permanece é se o projeto da 777 Partners no Vasco prioriza a construção de uma equipe competitiva e a manutenção de seus principais referenciais ou se a lógica financeira, que visa o lucro e a valorização de ativos, prevalecerá. A fala de Lopes, embora tranquilizadora no curto prazo, não elimina a apreensão de que o capitão, como qualquer outro jogador, possa ser visto primariamente como um ativo no balanço contábil da empresa.
A Lógica da Austeridade: Cortes na Folha e a Realidade da SAF
Se a primeira parte do pronunciamento de Admar Lopes serviu para acalmar os ânimos, a segunda revelou as contradições e os desafios financeiros que o clube enfrenta, mesmo sob a gestão de um conglomerado de investimentos internacional. O diretor confirmou que o Vasco aceitou uma proposta pelo atacante David, que agora decide seu futuro, e que o jovem Leandrinho também pediu para ser negociado. Mais reveladora, contudo, foi a justificativa para a postura do clube na janela de transferências. "Estamos tentando baixar a folha para depois definir o que podemos fazer no mercado", afirmou Lopes.
Esta frase é sintomática e expõe a fragilidade do discurso que vendeu as SAFs como a solução mágica para os problemas crônicos dos clubes brasileiros. A promessa era de investimento pesado, gestão profissional e o fim da era do "pires na mão". A realidade, no entanto, parece ser outra. Um clube com a grandeza do Vasco, controlado por um grupo que administra bilhões de dólares em ativos globais, admitir publicamente que precisa primeiro reduzir custos para depois pensar em investir soa como um paradoxo. Onde está o aporte de capital prometido? A estratégia de "enxugar" a folha salarial antes de contratar se assemelha perigosamente às práticas de gestões amadoras do passado, forçadas a vender o almoço para comprar o jantar.
Essa política de austeridade levanta um debate fundamental sobre o verdadeiro propósito do modelo SAF no futebol brasileiro. Trata-se de um projeto de reconstrução esportiva ou de uma operação de saneamento financeiro que visa tornar o clube um "produto" mais rentável e atraente para uma futura venda? A necessidade de cortar despesas e a lentidão em reforçar o elenco de forma robusta indicam que a prioridade da 777 Partners pode não estar alinhada com os anseios imediatos da torcida por um time forte e competitivo, mas sim com metas de equilíbrio fiscal e otimização de recursos que caracterizam o mundo corporativo, muitas vezes em detrimento da paixão e da glória esportiva.
O Atleta como Ativo e o Futuro em São Januário
A dança das cadeiras no elenco vascaíno ilustra perfeitamente a transformação do jogador de futebol em um ativo negociável. Enquanto se busca um novo atacante no mercado, a saída de David é dada como certa e a de Leandrinho é encaminhada. Esse fluxo constante, ditado por planilhas de custo e oportunidades de negócio, gera um ambiente de instabilidade que dificulta a criação de um projeto esportivo de longo prazo. A equipe se torna um portfólio de investimentos, com peças sendo constantemente trocadas em busca da melhor relação custo-benefício, e não necessariamente da melhor performance em campo.
Nesse cenário, a figura de Pablo Vegetti ganha ainda mais relevância. Ele é um dos poucos elos que conectam o time atual à alma do clube e à sua torcida. Sua eventual saída não significaria apenas a perda de gols, mas a quebra de um vínculo simbólico, um sinal de que, na nova ordem do futebol-empresa, nem mesmo o capitão e ídolo está a salvo das frias leis do mercado. A busca por um novo atacante, mencionada por Admar Lopes, é uma necessidade técnica, mas também um movimento que, dependendo do perfil do contratado, pode indicar os rumos do projeto: a busca por um substituto à altura ou apenas uma peça mais barata para compor o elenco.
O futuro em São Januário, portanto, permanece nebuloso. A diretoria tenta equilibrar a necessidade de resultados imediatos com um plano de reestruturação financeira que parece mais lento e restritivo do que o esperado. Para o torcedor, resta a desconfiança e a torcida para que a lógica do futebol, da paixão e da identidade, personificada em seu capitão, consiga resistir à pressão avassaladora da lógica do capital, que hoje dita as regras do jogo dentro e fora das quatro linhas.
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