OCDE impõe narrativa de crise e projeta baixo crescimento para o Brasil em 2015
Relatório do 'clube dos ricos', divulgado em pleno período eleitoral, revisa projeções para baixo e usa inflação como pretexto para pressionar por agenda neoliberal
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247 – Em um movimento que reflete a pressão dos centros do capitalismo global sobre as políticas econômicas soberanas do Brasil, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou nesta segunda-feira (15) um relatório que projeta um crescimento modesto para o país. Segundo o documento, a economia brasileira deve avançar apenas 1,4% em 2015, após uma expansão quase nula de 0,3% em 2014. A informação, originalmente reportada pela BBC News Brasil, surge de uma considerável revisão para baixo das previsões anteriores da entidade, convenientemente divulgada a poucas semanas das eleições presidenciais.
O relatório, intitulado “Avaliação Econômica Intermediária”, insere o Brasil em uma posição de destaque negativo, com um desempenho previsto abaixo não apenas de outras nações emergentes, mas também de países ricos que ainda se recuperam da crise de 2008. A análise da OCDE, conhecida por ser o “clube dos países ricos” e por defender uma agenda econômica ortodoxa, aponta para a “inflação alta” e as “incertezas pós-eleições” como justificativas para o pessimismo, um diagnóstico que ecoa as narrativas do mercado financeiro e da oposição ao governo da presidenta Dilma Rousseff.
O Diagnóstico Seletivo do “Clube dos Ricos”
A OCDE, sediada em Paris, é uma organização composta majoritariamente por nações desenvolvidas e historicamente atua como um think tank para a disseminação de políticas neoliberais, como privatizações, desregulamentação financeira e austeridade fiscal. Não é surpresa, portanto, que sua análise sobre o Brasil em 2014 se concentre em variáveis que servem de pretexto para a recomendação de um “choque de gestão” alinhado aos interesses do capital internacional. A revisão drástica das projeções, que antes eram mais otimistas, ocorre em um momento politicamente sensível, amplificando o coro dos que pregam o fim do ciclo de governos progressistas no país.
O relatório coloca o Brasil em uma situação delicada, afirmando que “o Brasil deverá crescer 1,4% em 2015 contra 0,3% neste ano, mas ainda abaixo de vários emergentes e países ricos”. Essa comparação, no entanto, omite fatores cruciais. A economia brasileira, durante os governos do PT, priorizou a distribuição de renda, o fortalecimento do mercado interno e a manutenção de taxas de desemprego historicamente baixas. Tais políticas, embora tenham garantido uma resiliência social notável frente à crise global, contrariam a cartilha da OCDE, que favorece ajustes fiscais rigorosos, mesmo que à custa do bem-estar da população. A organização ignora deliberadamente que o modelo brasileiro optou por proteger o emprego e a renda, uma escolha política que o pensamento neoliberal considera um obstáculo ao “crescimento potencial”.
Dessa forma, a “Avaliação Econômica Intermediária” funciona menos como um documento técnico isento e mais como uma peça de pressão política. Ao pintar um cenário de estagnação, a OCDE busca validar a tese de que o modelo de desenvolvimento com inclusão social estaria esgotado, pavimentando o caminho para a defesa de reformas estruturais que, na prática, significam o desmonte de conquistas sociais e a submissão da economia nacional aos ditames do sistema financeiro global.
A Pressão Eleitoral e a Narrativa da “Incerteza”
O momento da divulgação do relatório não poderia ser mais emblemático. Lançado em meados de setembro de 2014, em plena campanha eleitoral, o documento da OCDE alimenta diretamente o discurso da oposição e do mercado financeiro contra a candidatura à reeleição da presidenta Dilma Rousseff. A menção explícita às “incertezas pós-eleições” como um dos entraves ao crescimento é uma clara mensagem codificada: a “incerteza” para essas instituições é a continuidade de um projeto político que não se curva totalmente aos seus interesses.
Para o capital financeiro e para os tecnocratas de organismos como a OCDE, a “certeza” seria a eleição de um candidato comprometido com a agenda de austeridade, com o controle rígido da inflação via aumento de juros (o que deprime a atividade econômica e eleva o desemprego) e com a redução do papel do Estado na economia. A “incerteza”, portanto, é a democracia e a possibilidade de o povo brasileiro optar por um caminho diferente, que priorize o desenvolvimento social, o pleno emprego e a soberania nacional. O relatório, ao ecoar essa retórica, atua como um cabo eleitoral disfarçado de análise técnica, buscando influenciar o debate público e a decisão do eleitorado.
Essa tática não é nova. Historicamente, agências de classificação de risco e organismos multilaterais intensificam suas avaliações e relatórios negativos em períodos eleitorais em países do Sul Global que desafiam a ortodoxia econômica. O objetivo é criar um clima de crise iminente, associando a gestão governista ao caos e apresentando a agenda neoliberal como a única salvação possível. É uma forma sutil, mas poderosa, de intervenção externa no processo democrático de uma nação soberana, utilizando a linguagem da economia para promover uma agenda eminentemente política.
Inflação: O Fantasma Seletivo do Mercado
O argumento da “inflação alta” é outro pilar da crítica da OCDE, e merece uma análise mais aprofundada. Em 2014, a inflação no Brasil orbitava o teto da meta, um nível que, embora exija atenção, estava longe de representar um descontrole. Mais importante, essa pressão inflacionária era, em grande parte, resultado de uma economia que operava com as menores taxas de desemprego de sua história. A forte demanda, impulsionada pela valorização real do salário mínimo e por políticas de transferência de renda, era um dos motores da inflação – um fenômeno típico de uma economia que inclui, em vez de excluir.
A OCDE e o mercado financeiro, no entanto, tratam a inflação como um mal absoluto, ignorando seu contexto social. Para eles, o remédio é sempre amargo e quem paga a conta é o trabalhador: arrocho salarial, aumento da taxa de juros para esfriar a economia e, consequentemente, aumento do desemprego. O que o relatório da OCDE classifica como um problema – a inflação decorrente de uma demanda aquecida – era, na verdade, um sintoma do sucesso das políticas de inclusão social. A organização convenientemente omite que a alternativa, uma inflação baixíssima à custa de uma recessão profunda e de milhões de desempregados, seria socialmente devastadora.
A obsessão com uma meta de inflação rígida, defendida pelo “clube dos ricos”, serve aos interesses dos rentistas, que se beneficiam de juros altos, mas penaliza a produção e o emprego. Ao destacar a inflação como um problema central sem ponderar os avanços sociais conquistados, a OCDE revela sua preferência por uma estabilidade macroeconômica que beneficia uma minoria em detrimento da prosperidade da maioria da população. A crítica, portanto, é ideológica: desqualifica um modelo de desenvolvimento que ousa desafiar a primazia do capital financeiro sobre o bem-estar social.
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