Força do minério de ferro brasileiro expõe dependência e desafios globais
Exportações recordes, impulsionadas pela demanda chinesa e pela Vale, devem se manter robustas, mas acendem alerta sobre o modelo extrativista e a soberania nacional
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247 – O Brasil, um dos maiores produtores de minério de ferro do mundo, atingiu volumes de exportação recordes e, segundo projeções, deve manter essa força no mercado global pelo menos até 2026. A informação, destacada pelo portal especializado BNamericas, revela a robustez de um setor que é pilar da balança comercial brasileira, mas que também expõe as profundas contradições do modelo de desenvolvimento do país. Impulsionada principalmente pela demanda insaciável da China e pela capacidade operacional de gigantes como a Vale, essa performance exportadora coloca o Brasil em uma posição estratégica no tabuleiro geopolítico, ao mesmo tempo em que aprofunda sua dependência econômica de commodities e levanta sérias questões sobre os custos sociais e ambientais do extrativismo.
Os motores da potência exportadora e o eixo Brasil-China
A força sustentada das exportações de minério de ferro do Brasil não é um fenômeno acidental, mas o resultado de uma combinação de fatores estruturais. Em primeiro lugar, o país detém reservas geológicas de altíssima qualidade, com destaque para o Sistema Carajás, no Pará, que oferece um minério com teor de ferro superior a 65%, altamente cobiçado pelas siderúrgicas globais por sua eficiência e menor impacto ambiental relativo no processo de produção de aço. A gigante Vale, privatizada nos anos 90 em um processo controverso, consolidou-se como a principal operadora, detendo uma logística complexa e eficiente que conecta as minas do interior a portos de grande calado, como o de Ponta da Madeira, no Maranhão.
O principal motor, contudo, é externo: a China. Como maior produtora de aço do mundo, a nação asiática consome mais da metade de todo o minério de ferro transoceânico. O apetite chinês por infraestrutura, urbanização e manufatura tornou o Brasil um parceiro comercial indispensável, criando uma simbiose econômica que, embora lucrativa, é assimétrica. Enquanto o Brasil exporta a matéria-prima bruta, a China a transforma em produtos de alto valor agregado, de vigas de aço a componentes eletrônicos, reexportando-os para o mundo, inclusive para o próprio Brasil. Essa dinâmica perpetua a posição do Brasil na divisão internacional do trabalho como um fornecedor primário, um papel historicamente atribuído às nações do Sul Global.
A análise da BNamericas, que projeta que "as exportações de minério de ferro do Brasil devem permanecer fortes em 2026", reflete a expectativa de que essa demanda estrutural chinesa, ainda que possa oscilar, não desaparecerá no médio prazo. A competição com a Austrália, o outro grande fornecedor global, adiciona uma camada geopolítica, com o Brasil se beneficiando de sua posição diplomática mais autônoma e de sua participação em blocos como o BRICS para solidificar seus laços com Pequim, em um contraponto sutil à aliança anglo-saxônica da Austrália com os Estados Unidos.
O paradoxo do minério: Riqueza para poucos, dependência para a nação
A receita bilionária gerada pelo minério de ferro é frequentemente celebrada como um trunfo para a economia brasileira, equilibrando as contas externas e gerando superávits comerciais. No entanto, uma análise crítica, alinhada a uma perspectiva progressista, revela o que economistas chamam de "doença holandesa" ou a maldição dos recursos naturais. A entrada massiva de dólares proveniente da exportação de uma única commodity tende a valorizar a moeda nacional, o real, tornando os produtos manufaturados brasileiros mais caros e menos competitivos no mercado internacional. O resultado é um processo de desindustrialização crônico, onde a indústria de transformação perde espaço para a importação e para a primazia do setor extrativista.
Essa dependência excessiva de um produto cujo preço é definido por bolsas de valores internacionais, sujeitas à especulação e às flutuações da demanda global, torna a economia brasileira extremamente vulnerável. Um arrefecimento da construção civil na China ou uma crise financeira global pode derrubar os preços do minério, causando um rombo fiscal e desemprego no Brasil. O modelo, portanto, favorece a acumulação de capital por um pequeno grupo de acionistas de grandes corporações, muitas vezes estrangeiros, em detrimento de um desenvolvimento industrial diversificado e soberano, que geraria empregos de maior qualidade e distribuiria a riqueza de forma mais equitativa.
A lógica extrativista, focada na exportação de matéria-prima com baixo valor agregado, é uma herança colonial que o neoliberalismo aprofundou. Em vez de investir em tecnologia para transformar o minério em aço de alta qualidade ou em produtos finais dentro do país, o Brasil se contenta com os royalties da extração – uma compensação financeira historicamente baixa e mal fiscalizada, que não cobre os custos sociais e ambientais de longo prazo impostos pela atividade mineradora.
As cicatrizes do extrativismo e as implicações geopolíticas
Falar da força da mineração no Brasil sem mencionar as tragédias de Mariana (2015) e Brumadinho (2019) seria ignorar o custo humano e ambiental deste modelo. Os rompimentos das barragens de rejeitos, ambas sob responsabilidade da Vale (a primeira em consórcio com a BHP Billiton), ceifaram centenas de vidas, destruíram ecossistemas inteiros e contaminaram rios com lama tóxica, deixando um rastro de devastação que perdurará por gerações. Esses eventos não foram acidentes, mas crimes resultantes de uma lógica de maximização do lucro que negligencia a segurança, o meio ambiente e a vida humana. A busca incessante por reduzir custos e a captura do Estado por meio de um lobby poderoso levaram a uma flexibilização das leis ambientais e a uma fiscalização precária, culminando no desastre.
A expansão da fronteira mineral também gera conflitos agrários, ameaçando territórios de povos indígenas e comunidades quilombolas. A mina de Carajás, por exemplo, está encravada na Amazônia, e sua operação e expansão exercem uma pressão constante sobre a floresta e seus povos. A promessa de desenvolvimento para as cidades mineradoras raramente se cumpre, deixando para trás um legado de dependência econômica, infraestrutura precária e passivos ambientais gigantescos quando a exaustão da mina se aproxima.
No cenário global, a posição do Brasil como fornecedor confiável de minério de alta qualidade é uma faca de dois gumes. Por um lado, confere ao país uma certa relevância estratégica, especialmente nas relações com a China. Por outro, essa relevância está condicionada a manter o fluxo da commodity. Qualquer tentativa de exercer maior soberania sobre os recursos, como aumentar significativamente os royalties ou exigir maior processamento local, enfrenta a resistência feroz do capital internacional e de seus aliados internos. A expectativa de que "as exportações de minério de ferro do Brasil devem permanecer fortes em 2026" é, portanto, uma previsão que carrega consigo a continuidade desse modelo predatório, a menos que haja uma mudança radical na política econômica e na correlação de forças políticas do país.
Futuro incerto: Transição energética ou aprofundamento do neocolonialismo?
Olhando para o futuro, a demanda por aço deve permanecer alta, em parte impulsionada pela transição energética. A construção de turbinas eólicas, painéis solares e infraestrutura para veículos elétricos requer enormes quantidades de aço. Isso poderia ser uma oportunidade para o Brasil, mas também um risco. A pressão por um "minério verde", com menor pegada de carbono, pode levar a investimentos em tecnologia, mas também pode servir como "greenwashing" (maquiagem verde) para as corporações, que continuariam a operar sob a mesma lógica extrativista, apenas com um selo de sustentabilidade.
O desafio fundamental para o Brasil é romper com o ciclo de dependência. Isso exigiria uma política de Estado robusta, que utilize as receitas do minério para financiar a diversificação industrial, a ciência e a tecnologia, e a transição para uma economia de baixo carbono que seja socialmente justa. Significa fortalecer os órgãos de fiscalização ambiental, garantir a consulta prévia, livre e informada das comunidades afetadas, conforme a Convenção 169 da OIT, e cobrar das mineradoras a internalização de todos os seus custos socioambientais. A força exportadora do minério de ferro só será verdadeiramente positiva para o Brasil quando a riqueza gerada sob a terra servir para construir uma nação soberana, justa e sustentável, e não apenas para engordar os lucros de acionistas em centros financeiros globais.
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