A obsessão de ditador Trump pelo petróleo venezuelano expõe os limites da diplomacia fóssil
Análise do New York Times revela como a estratégia de 'dominância energética' dos EUA esbarra na realidade de um mercado saturado e na resistência do capital privado
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247 – A ambição de Donald Trump de transformar o controle sobre o vasto petróleo da Venezuela em uma ferramenta de poder geopolítico para os Estados Unidos está colidindo frontalmente com a dura realidade do século XXI. A estratégia, que visa consolidar uma "dominância energética" para projetar poder global, enfraquecer produtores do Oriente Médio e aumentar a dependência de rivais como a China, revela-se anacrônica e mal calculada. Uma análise aprofundada de Anton Troianovski para o The New York Times, publicada em 12 de janeiro de 2026, detalha como os planos grandiosos de Trump enfrentam obstáculos intransponíveis, desde a relutância das próprias gigantes petrolíferas americanas em investir no país sul-americano até a dinâmica de um mercado global afogado em excesso de oferta, questionando o valor real dessa suposta dominância em um mundo que caminha para longe dos combustíveis fósseis.
O sonho imperialista da 'dominância energética'
Na visão de Trump, o controle das maiores reservas de petróleo do mundo, na Venezuela, seria um trunfo geopolítico. A posse desse ativo permitiria aos EUA agir com maior liberdade internacional, imunes a choques de preços que historicamente limitaram suas ações, especialmente no Oriente Médio. Para a Casa Branca, isso significaria a redução da influência da OPEP e a criação de uma dependência estratégica por parte de grandes consumidores, como a China.
A preocupação em Pequim é palpável. Segundo Tong Zhao, analista do Carnegie Endowment for International Peace, teme-se que a crescente influência dos EUA na América Latina possa "permitir que os Estados Unidos cortem o fornecimento de petróleo e outros recursos estratégicos da região para a China à vontade".
Essa percepção de poder não é exclusiva dos chineses. Na Rússia, o chefe do fundo soberano do país, Kirill Dmitriev, reconheceu que Washington poderia obter um "enorme poder de mercado" no comércio global de petróleo. A lógica de Trump, forjada nas crises energéticas do século passado, é simples e direta: quem controla o petróleo, controla o mundo. Ele chegou a criar um "Conselho de Dominância Energética Nacional" com o objetivo de reduzir a dependência de importações. A intervenção na Venezuela, que culminou na captura de Nicolás Maduro em 3 de janeiro de 2026, foi vista por ele como a oportunidade perfeita para colocar em prática seu antigo mantra de "tomar o petróleo". Contudo, essa mentalidade ignora as profundas transformações econômicas e tecnológicas que redefiniram o papel da energia nas relações internacionais.
O capital diz 'não': a realidade do mercado se impõe
O primeiro e mais contundente choque de realidade para Trump veio de onde ele talvez menos esperasse: do próprio capitalismo americano. Ao contrário de potências como Rússia ou Arábia Saudita, os Estados Unidos não possuem uma companhia petrolífera nacional que atue como um braço do governo. As decisões de investimento são tomadas por empresas privadas com base no lucro, não em desígnios geopolíticos da Casa Branca. Esse fato ficou explícito em uma reunião com executivos do setor. Enquanto Trump falava como se já estivesse no comando das exportações venezuelanas, afirmando que o país estava "aberto para negócios", o CEO da Exxon Mobil, a maior petrolífera dos EUA, jogou um balde de água fria em seus planos, classificando a Venezuela como "ininvestível" e se recusando a comprometer grandes aportes de capital.
A reação de Trump foi imediata e reveladora dos limites de seu poder. Irritado, ele disse a repórteres que a gigante do petróleo estava "sendo espertinha demais" e ameaçou: "Eu provavelmente estaria inclinado a manter a Exxon fora" da Venezuela. Esse embate público demonstra a fissura fundamental em sua estratégia. Mesmo que o governo americano controle militar e politicamente um território, ele não pode forçar suas corporações a investir bilhões em infraestrutura devastada e em um mercado global com preços deprimidos – o barril de petróleo nos EUA negociava perto de US$ 56, seu nível mais baixo em cinco anos. A Venezuela, apesar de suas reservas, hoje produz apenas 1% do petróleo mundial devido a anos de sanções e má gestão, e reverter esse quadro exigiria um esforço financeiro e temporal que o setor privado não está disposto a bancar.
Um mundo afogado em petróleo: o fim da arma geopolítica
A fixação de Trump com o petróleo como espólio de guerra remonta a uma era que não existe mais. Sua mentalidade foi moldada pela crise de 1973, quando os países árabes impuseram um embargo e demonstraram a vulnerabilidade de uma economia dependente de importações. Em seu livro de 1987, "A Arte da Negociação", ele lembra como o embargo "devastou" as companhias aéreas dos EUA. O problema é que o mundo mudou drasticamente desde então. Como aponta Amy Myers Jaffe, acadêmica de energia e geopolítica da Universidade de Nova York, "1973 já passou há muito tempo. O petróleo não é mais nosso calcanhar de Aquiles". Hoje, os Estados Unidos são o maior produtor mundial de petróleo, e sua economia é muito mais diversificada e menos sensível a choques de oferta.
O mercado global está, nas palavras de analistas, "inundado" por um vasto excesso de oferta. Nesse cenário, adicionar a produção venezuelana, mesmo que totalmente recuperada, não concederia o tipo de poder de barganha que existia no passado. Meghan L. O'Sullivan, diretora do Projeto de Geopolítica da Energia na Harvard Kennedy School, observa que, embora Trump esteja menos constrangido pela ameaça de picos de preços ao considerar ações militares, ele ainda pode ser desafiado pelos produtores do Golfo, como a Arábia Saudita, que precisam de preços mais altos para equilibrar seus orçamentos. "Eles podem não se sentir inclinados a bombear mais petróleo para garantir preços baixos da gasolina para o consumidor americano se as ações de Trump levarem a mais instabilidade", analisa O'Sullivan, que serviu na administração de George W. Bush durante a Guerra do Iraque.
O custo da obsessão: miopia estratégica e o futuro da energia
A insistência de Trump no petróleo como pilar da política externa não é apenas anacrônica, mas estrategicamente míope. Cliff Kupchan, presidente do Eurasia Group, uma consultoria de risco político, classifica a estratégia como uma "aposta ruim". O verdadeiro perigo, segundo ele, é que essa obsessão com combustíveis fósseis distrai a administração da competição que realmente definirá o século XXI: a liderança em tecnologias de ponta baseadas em eletricidade, uma área onde a China se destaca. A energia do futuro não virá de poços de petróleo, mas de painéis solares, turbinas eólicas e baterias de alta eficiência.
Kupchan reconhece que algum poder pode ser extraído do controle sobre o petróleo venezuelano ou mesmo iraniano, mas adverte sobre o custo de oportunidade. "Trump não está errado em pensar que há alguma vantagem a ser derivada do petróleo venezuelano e iraniano", afirma. "O que é importante, no entanto, é que a contrapartida é realmente severa." Ao apostar todas as fichas em um recurso em declínio, os Estados Unidos correm o risco de perder a corrida tecnológica e econômica para a China, que investe maciçamente em energias renováveis e veículos elétricos. A busca pela "dominância energética" através do petróleo do século XX pode, ironicamente, garantir a irrelevância estratégica dos EUA no cenário energético do século XXI.
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