Ataques fatais de abelhas: a tragédia que expõe o descaso do Estado
Morte de idoso no Rio de Janeiro acende alerta sobre a combinação de crise climática, vulnerabilidade social e a ausência de políticas públicas preventivas
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247 – Uma tragédia evitável ceifou a vida de um idoso e lançou luz sobre uma perigosa confluência de negligência estatal, crise ambiental e vulnerabilidade social. Carlos Barreto da Silva, de 79 anos, morreu na última quarta-feira (7) após ser vítima de um violento ataque de abelhas na localidade de Aroeira, em São Francisco de Itabapoana, no Norte Fluminense. Encontrado desacordado no quintal de sua casa, ele foi levado por familiares a uma Unidade Básica de Saúde (UBS), mas não resistiu. O caso, noticiado pelo portal g1, revela uma falha crítica na resposta do poder público: a Defesa Civil só foi acionada para remover a colmeia horas após o ataque fatal, evidenciando um modelo de atuação reativo que custa vidas, em vez de uma abordagem preventiva que as protege.
Uma morte anunciada pela ausência
O falecimento de Carlos Barreto da Silva não foi um simples acidente ou uma fatalidade imprevisível da natureza. Foi, antes de tudo, o resultado de uma ausência. A ausência de um serviço público proativo, de canais de comunicação eficientes e de uma política de prevenção de riscos ambientais que alcance as populações mais afastadas dos grandes centros. Segundo a nota emitida pela Defesa Civil do município, "o pedido para remoção de uma colmeia de abelhas na localidade de Aroeira foi feito somente por volta das 11h de quarta-feira (7), ou seja, horas depois do ataque que vitimou o idoso." A informação é devastadora, pois sugere que a máquina pública só se moveu após a consumação da tragédia.
Ainda mais alarmante é o fato de que, conforme a mesma nota, "antes da morte de Carlos Barreto da Silva não havia nenhum pedido, solicitação ou registro relacionado à remoção de colmeias ou a casos de picadas de abelhas naquela localidade." Esta declaração, embora isente o órgão de uma omissão direta a um chamado prévio, aponta para um problema estrutural mais profundo: a falta de monitoramento ativo de riscos e de campanhas de conscientização que informem os cidadãos sobre como e quando acionar as autoridades. Em comunidades rurais e periféricas, a percepção de que o Estado é uma entidade distante e burocrática muitas vezes desestimula a busca por ajuda, até que a situação atinja um ponto crítico e, neste caso, fatal.
A morte do Sr. Carlos é um sintoma doloroso de um modelo de gestão que, sob a égide de políticas neoliberais de enxugamento da máquina pública, precariza serviços essenciais como a Defesa Civil e o controle ambiental. A prevenção é vista como custo, não como investimento. O resultado é um Estado que atua como mero espectador de desastres, limitando-se a registrar ocorrências e remover os escombros – ou, neste caso, a colmeia – depois que o pior já aconteceu. A vida de um cidadão de 79 anos foi o preço pago por essa lógica perversa.
Abelhas africanizadas, desmatamento e a crise climática
Para compreender a crescente frequência e periculosidade desses ataques, é preciso ir além do caso individual e analisar o contexto ecológico e histórico. O Brasil é o lar das chamadas abelhas africanizadas, um híbrido resultante do cruzamento de subespécies europeias com abelhas africanas, introduzidas no país na década de 1950 para um projeto de pesquisa que visava aumentar a produção de mel. Embora extremamente produtivas e bem-adaptadas ao clima tropical, essas abelhas herdaram de seus ancestrais africanos um comportamento altamente defensivo. Elas reagem a perturbações de forma muito mais rápida, massiva e persistente do que as abelhas europeias, o que torna seus ataques particularmente perigosos.
Este fator biológico é agora exacerbado por duas forças devastadoras: a crise climática e o desmatamento desenfreado. O aumento das temperaturas, as secas prolongadas e os eventos climáticos extremos geram um enorme estresse nas colônias, tornando-as mais irritadiças e propensas a enxamear em busca de novos locais. Simultaneamente, a destruição de seus habitats naturais – impulsionada pela expansão do agronegócio, pela mineração e pela especulação imobiliária – empurra esses enxames para fora das matas e florestas, forçando-os a se instalarem em áreas urbanas e periurbanas. Telhados, forros, caixas de luz e quintais, como o do Sr. Carlos, tornam-se os novos refúgios para colônias deslocadas e estressadas.
O que assistimos é um claro exemplo de conflito homem-natureza, onde a natureza não é a agressora, mas uma vítima que reage. A responsabilidade recai sobre um modelo de desenvolvimento predatório, que devasta biomas em nome do lucro de poucos, socializando os riscos ambientais para toda a população, com um peso desproporcional sobre os mais pobres e vulneráveis. Cada árvore derrubada na Amazônia ou na Mata Atlântica aumenta a probabilidade de um encontro fatal como o que ocorreu em São Francisco de Itabapoana.
Medidas de segurança e a urgência da ação coletiva
Diante deste cenário alarmante, a informação e a prevenção são as ferramentas mais poderosas para proteger vidas. É fundamental que a população saiba como agir para minimizar os riscos. A primeira e mais importante regra é: ao identificar uma colmeia ou um enxame, mantenha distância e não tente removê-lo por conta própria. A remoção de abelhas é uma atividade complexa e perigosa que exige equipamento de proteção individual (EPI) adequado e conhecimento técnico. A iniciativa de leigos pode facilmente resultar em um ataque massivo.
As autoridades competentes, como o Corpo de Bombeiros (telefone 193) e a Defesa Civil de seu município, devem ser acionadas imediatamente. É um direito do cidadão e um dever do Estado garantir uma resposta rápida e segura. Além disso, algumas medidas de precaução podem ser adotadas no dia a dia, especialmente em áreas rurais: evite ruídos altos, vibrações (como o uso de roçadeiras) e odores fortes (perfumes, gasolina) perto de locais onde possa haver abelhas. Roupas de cores claras são preferíveis, pois cores escuras podem ser associadas por elas a predadores naturais.
Em caso de um ataque inevitável, a orientação dos especialistas é clara: corra para se abrigar. Busque um local fechado, como um carro ou uma casa, o mais rápido possível. Corra em zigue-zague, pois isso dificulta a perseguição pelo enxame. Proteja o rosto e o pescoço com as mãos ou uma peça de roupa. Contrariando o senso comum, não pule na água; as abelhas podem esperar por um longo tempo até que a vítima precise emergir para respirar. Após se abrigar, é crucial remover os ferrões da pele o mais rápido possível (raspando-os com uma unha ou cartão, sem espremer) e procurar atendimento médico de emergência, mesmo que a pessoa não seja alérgica, devido ao risco de reação tóxica pelo volume de veneno.
Contudo, a segurança individual não é suficiente. É preciso cobrar do poder público políticas robustas de manejo ambiental, fiscalização contra o desmatamento, fortalecimento dos órgãos de defesa civil e campanhas educativas permanentes. A tragédia em São Francisco de Itabapoana é um chamado à ação. A vida de Carlos Barreto da Silva, e de tantos outros, não pode ser reduzida a uma estatística. Deve servir como um doloroso lembrete de que a justiça social e a justiça ambiental são indissociáveis e que um país que abandona seus cidadãos e seu meio ambiente está fadado a repetir suas mais tristes histórias.
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